Por Arnaldo Recchia / Café com o Careca
O Tribunal de Justiça de Santa Catarina inicia um novo ciclo administrativo. Entre 2026 e 2028, a condução do Judiciário catarinense passa às mãos do desembargador Rubens Schulz, que assumiu a presidência do Tribunal de Justiça de Santa Catarina em cerimônia solene marcada por forte simbolismo institucional, discursos de afirmação democrática e uma mensagem clara: a justiça do futuro não pode prescindir das pessoas.
Diante de autoridades dos três Poderes, representantes do sistema de justiça e da sociedade civil, Schulz fez um discurso de posse que foi além do protocolo. Ao afirmar que “a função do magistrado transcende a mera aplicação da lei”, o novo presidente colocou no centro do debate valores civilizatórios inegociáveis: integridade, prudência, independência, equilíbrio e transparência. Para ele, são esses pilares que sustentam uma justiça confiável e legitimada socialmente.
Cinco eixos para uma nova gestão
A nova administração do TJSC será orientada por cinco vertentes estruturantes: judicial, extrajudicial, administrativa, institucional e tecnológica. A proposta, segundo Schulz, é integrar essas frentes para entregar um Judiciário mais eficiente, sustentável e alinhado às demandas contemporâneas, sem perder o vínculo humano que dá sentido à jurisdição.
Há um conceito que atravessa toda a fala do presidente: pessoas, processos e tecnologia. A tecnologia aparece como ferramenta estratégica, e não como fim em si mesma. A inteligência artificial, por exemplo, é vista como aliada no processamento de dados, automação de tarefas repetitivas e melhoria da gestão administrativa, jamais como substituta da decisão judicial.
“O Judiciário brasileiro é o único totalmente digitalizado no mundo, e isso nos coloca em posição privilegiada para usar a tecnologia com responsabilidade”, destacou Schulz durante a coletiva de imprensa. Ao mesmo tempo, fez questão de frisar que não existe produtividade que justifique o adoecimento de magistrados e servidores.
Justiça feita por pessoas, para pessoas
Um dos pontos mais contundentes do discurso foi a defesa da humanização interna do Judiciário. Para o novo presidente, a saúde mental, o bem-estar e a valorização de magistrados, servidores e colaboradores não são temas periféricos, mas condições essenciais para uma prestação jurisdicional de qualidade.
“A humanização da justiça começa dentro de casa”, afirmou. Em outras palavras, tratar bem quem trabalha no sistema de justiça é pré-requisito para atender bem o cidadão que procura o Judiciário, muitas vezes em situações de extrema fragilidade emocional.
Essa visão foi reforçada na coletiva de imprensa, quando Schulz ressaltou que cada pessoa que ingressa no Judiciário carrega uma história única, e que compreender essa singularidade é parte do próprio conceito de justiça.
Presença institucional e diálogo como método
Outro compromisso assumido publicamente foi o da presença ativa da presidência nas comarcas. Schulz deixou claro que o Judiciário não se constrói apenas nos gabinetes da capital, mas no cotidiano das audiências, fóruns e comunidades espalhadas por Santa Catarina.
O diálogo também foi apontado como método de gestão. Antes de normatizar, dialogar; antes de decidir, ouvir. Essa lógica se estende à relação com os demais Poderes, instituições e à sociedade civil organizada, reforçando o papel do Judiciário como pacificador social, especialmente em tempos de polarização e julgamentos apressados nas redes sociais.
Tecnologia, dados e eficiência: sem perder o equilíbrio
Na coletiva, o presidente detalhou como a tecnologia deve impactar diretamente áreas sensíveis do Judiciário, como as execuções e cumprimentos de sentença, que hoje representam cerca de 60% dos processos em tramitação. A integração de bancos de dados e o uso inteligente de informações podem acelerar a localização de bens, endereços e movimentações patrimoniais, aumentando a efetividade das decisões judiciais.
Outro ponto relevante foi a consolidação do quadro completo de juízes substitutos no primeiro grau, algo raro na história do TJSC, e o recente aumento do número de desembargadores, que permitirá maior especialização das câmaras e melhor distribuição da carga processual.
Ainda assim, Schulz foi enfático: eficiência administrativa não pode ser sinônimo de mecanização da justiça. A tecnologia deve servir ao ser humano, nunca o contrário.
Programas sociais, ativismo e limites
Provocado durante a coletiva sobre o papel social do magistrado e o risco de ativismo judicial, Schulz foi direto. Defendeu a continuidade de programas institucionais de cunho social, muitos deles premiados nacionalmente, e a importância de o juiz conhecer a realidade da comarca onde atua.
Ao mesmo tempo, estabeleceu limites claros: o magistrado deve manter equilíbrio, discrição e imparcialidade. Há momentos em que falar menos é uma virtude institucional. A atuação social não pode comprometer a neutralidade exigida pela função jurisdicional.
Violência contra a mulher: ciência e prevenção
Um dos anúncios mais relevantes veio ao tratar do enfrentamento à violência doméstica. Santa Catarina está desenvolvendo um estudo científico inédito sobre o perfil psicológico do agressor, com apoio de pesquisadores nacionais e internacionais. A iniciativa busca compreender padrões comportamentais para aprimorar políticas públicas e estratégias de prevenção, indo além da resposta penal tradicional.
É uma sinalização clara de que o Judiciário catarinense pretende atuar também de forma preventiva, baseada em evidências, sem abrir mão da técnica e da legalidade.
Continuidade, legado e futuro
Ao longo de sua fala, Rubens Schulz reiterou que não inicia uma gestão do zero. Reconheceu o trabalho das administrações anteriores, especialmente do desembargador Francisco Oliveira Neto, e assumiu o papel de guardião da continuidade, com avanço responsável.
“O Judiciário é perene; nós, gestores, somos passageiros”, afirmou. A frase resume o espírito da nova presidência: honrar o passado, administrar o presente e preparar o futuro.
Ao final, deixou uma mensagem que sintetiza o tom da nova gestão: esperança, confiança e responsabilidade. A justiça, disse ele, não é obra de um homem só, mas de gerações.
E é exatamente nesse ponto que a posse de Rubens Schulz ganha relevância histórica: ao reafirmar que tecnologia, eficiência e inovação só fazem sentido quando caminham lado a lado com humanidade, escuta e compromisso ético com a sociedade catarinense.

