O Tribunal de Justiça de Santa Catarina destacou como o esporte, a educação e atividades complementares têm impulsionado a trajetória de jovens acolhidos no âmbito do Programa Novos Caminhos, uma iniciativa voltada à promoção de autonomia, inserção social e profissional de adolescentes que vivem em serviços de acolhimento do estado.
Criado em 2013 pela Coordenadoria Estadual da Infância e da Juventude (CEIJ) do tribunal, o Novos Caminhos reúne esforços de parceiros públicos e privados para oferecer acompanhamento individualizado, acesso à educação básica e profissionalizante, oficinas, atividades esportivas e experiências formativas que ampliam horizontes para esses jovens.
Na prática, o programa promove encontros, oficinas e atividades que combinam aprendizado com convivência social, esporte, saúde e preparação para o mercado de trabalho. As atividades esportivas, como jogos em equipe, recreação ao ar livre e oficinas temáticas, têm papel central não apenas no bem-estar físico, mas também no fortalecimento de habilidades sociais, autoestima e espírito de cooperação entre os participantes, segundo relato de gestores envolvidos no programa.
A iniciativa já soma mais de uma década de atuação e, ao longo dos anos, tem reforçado resultados positivos tanto na formação educacional quanto na inclusão desses jovens no mercado de trabalho ou em processos de qualificação profissional. Em dados anteriores ao programa, jovens que passaram pelo Novos Caminhos chegaram a ser matriculados em cursos profissionalizantes e inseridos em oportunidades de aprendizagem, estágio e emprego formal.
O programa opera com pilares que incluem educação básica e profissional, promoção de vida saudável, empregabilidade e parcerias com instituições da sociedade civil e empresas. Essa articulação proporciona aos adolescentes ferramentas para que desenvolvam seus projetos de vida com mais autonomia e responsabilidade social.
Segundo gestores e parceiros, ações como visitas técnicas a empresas, oficinas temáticas e atividades esportivas ajudam a ampliar a visão de futuro dos participantes e a criar novas oportunidades de emprego e qualificação, conectando a formação escolar com experiências práticas de mundo do trabalho.
O programa já chamou atenção nacional e inspirou iniciativas semelhantes fora de Santa Catarina, com reconhecimento pela sua abordagem humanizada e foco na inclusão social de jovens que vivem ou já viveram em serviços de acolhimento.
Na última semana, crianças e adolescentes atendidos pelo programa Novos Caminhos, na região sul do Estado, participaram de duas ações especiais recentemente: uma manhã de surfe no Balneário Rincão e uma visita técnica ao Parque Diamante, em Capivari de Baixo. Ambas as iniciativas promoveram vivências que ampliam o conhecimento, fortalecem vínculos e contribuem para o desenvolvimento integral dos acolhidos.
A atividade esportiva reuniu 36 crianças e adolescentes, entre três e 13 anos, e foi viabilizada por meio do Eu Voluntário, programa de voluntariado da Federação das Indústrias de Santa Catarina (FIESC) que conecta pessoas e instituições interessadas em apoiar projetos sociais. A plataforma permite que voluntários se cadastrem, informem suas habilidades e participem de ações organizadas por entidades de todo o Estado.
O projeto de surfe é realizado no Balneário Rincão durante a temporada de verão, com duas edições mensais entre dezembro e março. Para receber o grupo, a Abba Surf contou com cerca de 40 voluntários, que prepararam pranchas adaptadas, tendas de apoio e uma mesa de café. Eles também acolheram adultos de residências inclusivas e famílias atípicas, que integraram a atividade.
Segundo a coordenadora do projeto, Franciele Nasario, cada ação busca oferecer segurança, cuidado e um ambiente acolhedor.
“É uma honra poder receber essas crianças e adolescentes. Proporcionar uma manhã de diversão, amor e cuidado não tem preço. Nosso coração fica cheio de gratidão”, destacou.
Além da vivência esportiva, um grupo de 10 adolescentes com mais de 14 anos visitou o Parque Diamante, sede do programa de Educação Ambiental da Diamante Energia. O espaço recebe escolas e entidades interessadas em conhecer temas ligados ao meio ambiente, sustentabilidade e geração de energia. Durante a visita, os jovens participaram de dinâmicas ao ar livre e atividades educativas em sala, que estimulam o pensamento crítico e aproximam os participantes de assuntos importantes para a formação cidadã.
De acordo com o juiz Klauss Corrêa de Souza, da Vara da Infância e Juventude da comarca de Criciúma, as atividades têm papel fundamental no desenvolvimento emocional, social e educacional dos acolhidos.
“Cada experiência vivida fora do ambiente institucional amplia horizontes e fortalece a autoestima. São oportunidades que ajudam a construir autonomia, confiança e novos projetos de vida. Iniciativas como essas representam um investimento direto no futuro dessas crianças e adolescentes”, destacou o magistrado.
Café para pensar
A reportagem do TJSC apresenta o programa Novos Caminhos como um modelo bem-sucedido de inserção social. E, de fato, iniciativas que combinam educação, empregabilidade e esporte ampliam horizontes. Mas a experiência de campo em unidades socioeducativas mostra que o desafio vai além da oferta de atividades. Este escriba do Café, teve a oportunidade imersiva em um projeto que envolvia esporte e inclusão.
Durante projeto de extensão realizado no Centro de Internação Feminina (CIF), em Florianópolis, foi possível constatar uma tensão permanente entre duas lógicas: a institucional, muitas vezes estruturada de forma vertical, e a necessidade de protagonismo real dos adolescentes. Como já alertava, o jurista italiano, Alessandro Baratta, sistemas socioeducativos podem reproduzir seletividade e exclusão quando não rompem com a lógica meramente disciplinar. E a socióloga, Irene Rizzini, reforça que institucionalização sem reconstrução de vínculos tende a perpetuar ciclos de vulnerabilidade.
Na prática, o que faz diferença não é apenas “ofertar oficinas”, mas permitir que o jovem participe da construção do próprio projeto de vida. Escuta ativa, mediação de conflitos, adaptação de atividades às habilidades individuais e reconhecimento das subjetividades são elementos que transformam a medida socioeducativa em experiência emancipatória.
Experiências com práticas corporais, como o taekwondo sugerido no projeto em que propus e estudado por Lima e Costa (2020), mostram que disciplina, pertencimento e identidade podem ser reconstruídos por meio de vínculos e responsabilidade compartilhada. O esporte, nesse contexto, não é apenas atividade física: é linguagem simbólica de reorganização interna.
O sucesso de programas como o Novos Caminhos depende justamente dessa virada de chave: sair do modelo top-down e caminhar para uma abordagem em que o jovem deixa de ser destinatário de políticas públicas e passa a ser coautor do próprio processo de reintegração.
