Há algum tempo, o debate público brasileiro deixou de ser um espaço de proposições para se tornar um ringue de estímulos. O objetivo não é convencer – é incendiar. O choque virou estratégia de engajamento; a provocação, método; o estereótipo, atalho. E, como toda fogueira que se alimenta de slogans, ela ilumina pouco e queima muito.

O desfile da escola de samba de Niterói, com discurso de longa duração em torno de Lula, não foi apenas uma homenagem política. Foi, sobretudo, um ataque simbólico aos bolsonaristas, com zombarias explícitas, referências à prisão de Jair Bolsonaro e a imagem de famílias acomodadas em “latas de conserva” – uma alegoria que pretendeu ridicularizar o conservadorismo. A mensagem foi clara: reduzir o outro a uma caricatura para maximizar o aplauso da própria bolha.

O problema é que esse tipo de representação fere muito além do bolsonarismo. Nem toda família convencional é de direita; nem toda família desarranjada é de esquerda. Ao transformar “família” em arma simbólica, a política de enfrentamento por estereótipos revela uma ingenuidade que raramente se vê fora do recreio escolar. A vida real é mais complexa do que os rótulos permitem, e a democracia exige reconhecer essa complexidade.

A memória recente ajuda a entender o paradoxo. Em 2006, o Partido dos Trabalhadores tentou barrar um carro alegórico que trazia José Serra, Geraldo Alckmin e um tucano gigante, em referência direta ao PSDB paulista. Em outra frente, durante a discussão da reforma civil para acolher o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o próprio PT abraçou o discurso de que “não importa o jeito da família; família é onde tem amor”. Como conciliar esse princípio com a ridicularização pública de modelos familiares? A resposta é incômoda: não se concilia. Troca-se o princípio pelo aplauso.

É assim que a política moderna vem operando: menos projetos de país, mais vinagre nos olhos. A agenda pública se reduz a gatilhos emocionais cuidadosamente calibrados para gerar curtidas, compartilhamentos e manchetes. Não se debate educação, infraestrutura ou produtividade; disputa-se a hegemonia do choque. De parte a parte, o que se vê são projetos de manutenção de poder, não de construção nacional.

Dentro do próprio bolsonarismo, o enredo não é menos preocupante. A prioridade parece ser a perpetuação do sobrenome, enquanto qualquer figura de direita que emerja fora do clã corre o risco de ser lançada à vala comum dos “inimigos internos”. O resultado é um campo político que se autocanibaliza, incapaz de renovar ideias sem destruir pessoas.

O incêndio rende engajamento porque simplifica o mundo. Ele dispensa argumentos, substitui dados por símbolos e transforma divergência em identidade moral. Mas há um custo: quando a política abdica das proposições, o país abdica do futuro. O aplauso dura uma noite; a conta, uma geração.

Não sei se acredito nessa possibilidade, mas já passou da hora de baixar o volume do espetáculo e elevar o nível do debate. Menos caricaturas, mais projetos. Menos rótulos, mais realidade. Porque, no fim, o fogo que aquece a própria bolha é o mesmo que pode queimar a casa comum.

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