Na noite de 28 de outubro de 2020, a transmissão oscilava como quem respira fundo antes de dizer algo importante. A imagem congelava, o áudio falhava, mas Germano Rigotto permanecia ali, calmo, como quem já atravessou tempestades bem mais violentas que um simples sinal instável de internet. No Café com o Careca abria-se um espaço para um diálogo que misturava leveza de conversa de bar com a densidade da política gaúcha.
Rigotto, hoje palestrante atento às reformas e aos humores do país, falou olhando para a tela — e para a história. A pandemia havia empurrado suas viagens e conferências para o mundo virtual, mas ele insistia que o “olho no olho” ainda tinha peso próprio. O formato híbrido, disse, era o futuro. E ali, com a conexão caindo de tempos em tempos, esse futuro parecia ao mesmo tempo promissor e frustrante.
Enquanto a tela travava, o assunto se movia. A democracia brasileira, lembrou ele, é jovem. Chegou aos trancos, sofreu interrupções, sobreviveu a autoritarismos e retrocessos. Agora, com redes sociais e imprensa investigativa em vigilância permanente, amadurece ao som do alarme — entre erros, pressões e revelações.
Foi nesse clima que Rigotto mergulhou no velho dilema do seu estado. Falou de um Rio Grande do Sul cheio de potenciais e de amarras. Um estado que inovou, industrializou, formou polos de tecnologia capazes de disputar com qualquer centro do país, mas que carrega o peso de dívidas antigas, limitações logísticas e uma fronteira agrícola que não avança mais como antes. Para ele, o futuro está na inteligência — nos ecossistemas digitais, nos parques tecnológicos, nos vínculos entre academia e empresa. O agro segue forte, mas a tecnologia pode levar o estado aonde as estradas não levam.
E enquanto analisava o presente, Rigotto também revisitou a própria trajetória. Rejeitou com firmeza a ideia de que representasse o neoliberalismo — rótulo que, segundo ele, ignora sua defesa permanente de um Estado forte na educação, na saúde e na segurança, mas eficiente e responsável no uso dos recursos públicos.
A conversa então ganhou um sabor ainda mais gaúcho. Chegou a hora da brincadeira, mas a brincadeira virou síntese. O apresentador listou nomes da política nacional, e Rigotto deveria dizer com quem dividiria uma cuia de chimarrão. É um ritual simples para quem nasceu no Sul, mas carregado de sentido: dividir a cuia é dividir a confiança, o círculo íntimo, a palavra dada. É gesto que, quando negado, diz mais que um discurso inteiro.
Rigotto passou a cuia para Eduardo Leite, elogiou Pedro Simon com as duas mãos e considerou Michel Temer injustiçado pela história. Mas quando o nome de Jair Bolsonaro surgiu, a pausa falou antes da resposta. O ex-governador afirmou que não tomaria chimarrão com o ex-presidente. Não por birra, nem por partidarismo, mas por entender que faltara ao chefe do Executivo o que chamou de liturgia do cargo, sobriedade no falar, responsabilidade no conduzir temas sensíveis como a pandemia, a vacina e a economia. A recusa dizia o que palavras talvez não dissessem: certos limites culturais são, no Sul, tão sólidos quanto fronteiras.
Na cultura gaúcha, negar a cuia é construir um muro. Não é apenas discordar de alguém. É declarar que não há roda possível, que a comunhão simbólica foi interrompida. A política, ali, deixava de ser debate e virava relação pessoal — rompida.
No fim, mesmo com as quedas de conexão, o episódio ficou claro como café forte servido em xícara pequena. Rigotto descreveu um Brasil que precisa de reformas, de responsabilidade fiscal, de educação coordenada nacionalmente, de menos ruído e mais consistência. Apontou um Rio Grande do Sul que pode romper seu ciclo de crise se investir na inteligência que já produz. E lembrou que, apesar de toda a turbulência, a democracia brasileira segue amadurecendo, pressionada por uma sociedade que hoje enxerga mais, cobra mais e tolera menos.
Foi uma conversa marcada por silêncios involuntários da internet e por silêncios voluntários da política. Entre um corte de imagem e outro, surgiram ideias claras. E entre todas elas, nenhuma tão simbólica quanto a própria cuia que não circulou.
