Um ensaio narrativo sobre os bastidores da invenção do nome de uma das maiores artes marciais modernas, uma noitada regada a bebida e entrenimento adulto.
Havia um caractere que quase ninguém usava. Nas edições coreanas do ongpyeon, o dicionário de hanja, ele aparecia nas páginas traseiras, entre os raros, quase esquecidos: 跆 (tae), que significava algo como “pisar, chutar, saltar com os pés”. Segundo testemunhos colhidos pelo pesquisador do site Mookas.com em 2001, o caractere era tão incomum que localizá-lo era considerado, pelos iniciados da época, quase uma façanha arqueológica.
Quem o encontrou, ou ao menos quem reivindicou a descoberta, foi o General de Brigada Choi Hong-hi, comandante da 3ª Região Militar do Exército da República da Coreia. Segundo o próprio Choi em suas memórias Taekwondo wa Na (“O Taekwondo e Eu”, publicadas em edições sucessivas a partir dos anos 1960 e amplamente documentadas pelo Taekwondo Shinmun em reportagem de maio de 2008), ele e seu ajudante de ordens, o tenente Nam Tae-hi, passaram semanas folheando o dicionário à procura de uma sílaba que carregasse a história e a sonoridade que o antigo taekkyon, arte marcial popular coreana, já possuía no imaginário do Presidente Syngman Rhee. O resultado foi um neologismo de três sílabas: 跆拳道. Taekwondo.
Faltava, porém, o mais difícil: convencer o mundo de que aquele nome existia.
O Problema da Credibilidade
Choi Hong-hi tinha um problema que poucos dos seus contemporâneos conheciam e que ele procurava ocultar com a disciplina de um estrategista militar. Conforme documentado pelo Taekwondo Shinmun (2008), ele não possuía nenhuma graduação certificada nas artes marciais coreanas. Sua experiência formal havia sido no karatê japonês, praticado durante os anos de estudante na Universidade Central de Tóquio, onde chegou a visitar o dojang do mestre Funakoshi Gichin, o “pai do karatê japonês”.
Isso representava uma vulnerabilidade enorme. Em meados dos anos 1950, o cenário das artes marciais coreanas era dividido entre as grandes academias, os kwans, herdeiras diretas do karatê japonês trazido à Coreia no período colonial: a Chung Do Kwan, a Moo Duk Kwan, a Ji Do Kwan, a Song Mu Kwan, a Chang Moo Kwan e a nascente Oh Do Kwan, esta última criada pelo próprio Choi dentro do exército. O homem que quisesse unificar todas elas sob um único nome precisava de duas coisas que Choi ainda não tinha: legitimidade dentro das academias civis e o peso de uma autoridade maior que a sua própria patente.
A solução, como registra o site de pesquisa histórica Mookas, em análise publicada em 2001, foi ao mesmo tempo genial e política: construir um evento capaz de emprestar ao novo nome a credibilidade que o general, sozinho, não poderia oferecer. E para isso, ele precisava de uma noite.
A Lista dos Onze
Segundo o próprio Choi Hong-hi, citado em análise do pesquisador Lee Kyeong-myeong, a comissão reunida para deliberar sobre o nome da nova arte marcial era composta por onze pessoas, cuidadosamente escolhidas. Não eram mestres de artes marciais, na sua maioria. Eram, antes, homens de peso na sociedade sul-coreana de 1955:
Yu Ha-cheong, presidente da empresa Michang; Son Duk-sung, diretor da Chung Do Kwan e principal liderança das academias civis; Choi Hong-hi, o anfitrião e propositor do nome; Lee Hyeong-geun, Chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas (o mais alto posto militar do país); Jo Kyeong-gyu, Vice-Presidente da Assembleia Nacional; Jeong Dae-cheon, parlamentar; Han Chang-hwan, presidente do jornal Jeongjishinmun; Jang Gyeong-rok, editor-chefe do mesmo veículo; Hong Sun-ho, presidente da empresa Gongik Tongsan; Hyeon Jong-myeong, instrutor da Chung Do Kwan; e Go Gwang-rae, editor-chefe do Donga Ilbo, um dos jornais de maior circulação do país.
Generais, legisladores, empresários, jornalistas. Dos onze, apenas dois tinham ligação direta com as artes marciais. O resto era o que Choi mais precisava naquele momento: testemunhas ilustres.
A Casa das Kisaeng
E foi numa kisaeng-jip que eles se reuniram.
As casas de kisaeng, mulheres artistas treinadas em música, poesia e entretenimento, análogas às geisha japonesas, eram, na Coreia da época, o espaço informal por excelência do poder masculino. Políticos selavam alianças, generais negociavam posições e jornalistas construíam relações naquelas salas com mesas baixas, velas acesas e pratos de porcelana repletos de jeongol e bossam. Não era um lugar de vergonha, mas de confiança, o ambiente onde a guarda baixava e os acordos eram reais.
Foi lá que o nome taekwondo foi aprovado.
O próprio Choi Hong-hi, em suas memórias citadas pelo Taekwondo Shinmun (2008), escreveu sobre aquela noite com uma honestidade incomum para um homem de sua vaidade: “Para criar o taekwondo, pela primeira e única vez na minha vida, menti e organizei uma bebedeira que não estava no meu coração.” A confissão é simultaneamente a mais humana e a mais desconcertante de toda a história da arte marcial. O que ele chamava de “mentira”, os estudiosos posteriores passariam décadas tentando precisar.
Hipótese Grandiosa: E se a Data Estiver Errada?
Aqui começa o que talvez seja o mistério mais elegante da história do taekwondo, e que a fotografia famosa, exibida por décadas como o registro definitivo daquela noite, pode estar silenciosamente carregando.
A imagem em questão mostra entre dez e doze homens ao redor de uma mesa com velas, exatamente o cenário de uma kisaeng-jip. A legenda divulgada pelo site insidetkd.com identifica o conjunto como a “태권도 명칭제정위원회”, a Comissão de Nomenclatura do Taekwondo, e aponta que o terceiro da esquerda é Choi Hong-hi. A foto foi repetida por décadas como prova visual do evento de 11 de abril de 1955.
O problema é o que está escrito na própria fotografia.
Segundo análise publicada pelo site Mookas.com, fundamentada em pesquisa documental do historiador Lee Kyeong-myeong, a data inscrita no verso ou na margem da imagem em questão não é 4288년 4월 11일 – 11 de abril de 1955 no calendário coreano tradicional (dangi). A data registrada seria 4288년 12월 19일 – ou seja, 19 de dezembro de 1955. E a descrição do evento: não “Comissão de Nomenclatura”, mas “대한당수도 청도관 제1회 고문회” – a Primeira Reunião do Conselho Consultivo da Chung Do Kwan.
Se a leitura estiver correta, levanta-se uma hipótese de proporções históricas: a fotografia mais icônica do nascimento do taekwondo não registra o evento que proclama. A reunião de 11 de abril, se é que ocorreu nessa data, não teria deixado imagem. Ou teria, e essa imagem foi trocada, consciente ou inconscientemente, pela de um encontro diferente, realizado oito meses depois, em dezembro do mesmo ano, no âmbito interno de uma única academia.
Não se trata de acusar Choi Hong-hi de falsificação deliberada, a documentação disponível não permite essa certeza. Trata-se de algo mais inquietante: a possibilidade de que o momento fundador de um esporte olímpico praticado por mais de cem milhões de pessoas ao redor do mundo seja, na verdade, uma noite sem rosto, sem imagem verificável, e que a fotografia que ocupa seu lugar seja a de uma outra noite, em torno de uma outra mesa, com velas que iluminam outro propósito. E que isso seja o DNA da arte marcial até os dias atuais.
Mesmo que se aceite a data de 11 de abril como legítima, a narrativa de Choi enfrenta outra contradição, desta vez interna: o próprio general, em diferentes publicações, não consegue manter coerência sobre o que exatamente aconteceu naquele dia.
Em algumas versões, documentadas pelo Mookas a partir da obra Taekwondo wa Na , 11 de abril foi a data da reunião da comissão, onde o nome foi aprovado por unanimidade. Em outras, relatadas pelo historiador Lee Ho-sung e citadas no mesmo portal, 11 de abril foi a data em que o Presidente Syngman Rhee teria assinado a caligrafia (hwihho) com o termo taekwondo, tornando o nome oficial por decreto presidencial. Ou seja, como na noite daquela segunda-feira teria sido criado um nome já chancelado pelo presidente da Coreia do Sul, horas antes?
As duas afirmações não podem ser simultaneamente verdadeiras, e a segunda esbarra num dado que o os pesquisadores registram com precisão: quando os representantes da comissão foram pessoalmente à Gyeongmudae (a Casa Azul, residência do presidente) para obter o endosso presidencial, o General Kim Chang-ryong, chefe da contra-inteligência do exército, foi assassinado naquele mesmo dia, e a audiência foi cancelada. A caligrafia viria meses depois, por vias tortuosas de pressão junto ao secretariado presidencial.
E havia outro obstáculo ainda mais revelador: a primeira resposta do presidente ao pedido era a palavra taekkyon, grafada no estilo antigo, não taekwondo. Rhee, segundo os registros consultados pelo Mookas, conhecia e admirava o nome popular da arte marcial coreana, mas não o neologismo inventado por Choi.
Obter do presidente a grafia exata foi um trabalho de persistência política que levou meses, e que Choi, com a ironia seca que o caracterizava, resumiu na frase do “속담에 먹은 소 똥눈다” – o provérbio coreano que, livre e graciosamente traduzido, significa algo como: “O boi comeu, mas o esterco aparece.” Em outras palavras: a determinação bruta, no fim, produz o resultado.
O Homem Sem Graduação
Há um último detalhe que a história oficial do taekwondo raramente menciona, e que o Taekwondo Shinmun (2008) registrou com o cuidado de quem sabe que está tocando numa ferida:
Choi Hong-hi não tinha graduação certificada em nenhuma arte marcial coreana.
Seu único treinamento formal havia sido no karatê japonês, durante os anos de estudante no Japão. Quando começou a militar no universo das academias coreanas, essa ausência de certificação era, como documentado pelo Shinmun, “uma grande fraqueza para alguém que queria se colocar à frente do taekwondo”. A solução foi negociada com pragmatismo: Son Duk-sung, diretor da Chunk Do Kwan e um dos onze membros da Comissão de Nomenclatura, conferiu a Choi o 4º dan honorário de sua academia, em troca da inclusão dos instrutores civis no programa de demonstração internacional do exército.
O fundador do taekwondo obteve sua graduação como moeda de troca política, meses antes ou às vésperas da noite na kisaeng-jip.
Tudo isso não diminui o que Choi Hong-hi efetivamente fez: cunhar um nome, convencer um presidente relutante, e empurrar um conjunto disperso de academias rivais em direção a uma identidade comum. Mas coloca essa história onde ela sempre deveria ter estado, não no panteão dos mitos fundadores puros, mas no território muito mais rico, muito mais humano, de homens ambiciosos que constroem grandes coisas por meios imperfeitos, em noites que ninguém depois vai lembrar exatamente como foram.
Fontes Consultadas
Choi Hong-hi. Taekwondo wa Na [“O Taekwondo e Eu”]. Diversas edições, 1965–1990. Citado extensamente pelo Taekwondo Shinmun e pelo Mookas.com.
Choi Hong-hi. Taekwondo Gyoseo [“Manual de Taekwondo”]. Seonghwa Munhwasa, 1967.
Lee Ho-sung. Taekwondo American Dream 40 Years [“Sonho Americano do Taekwondo: 40 Anos”]. Citado pelo Taekwondo Shinmun, 2008.
Lee Kyeong-myeong. Taekwondo Munhwa-ui Ppuri-reul Chaja-seo [“Em Busca das Raízes da Cultura do Taekwondo”]. Eo-mun-gak, 2002. Análises e refutações publicadas no Mookas.com (mookas.com/news/1095 e mookas.com/news/1548).
Taekwondo Shinmun (태권도신문). “조명: 태권도 인물사 [1] 최홍희” [“Perfil: História de Figuras do Taekwondo — Choi Hong-hi”]. Seção de matérias especiais, publicado em 13 de maio de 2008, revisado em 25 de fevereiro de 2020. Disponível em: tkdnews.com/news/articleView.html?idxno=2831
InsideTKD (insidetkd.com). “태권도의 생일은 4월 11일인가?” [“O aniversário do Taekwondo é 11 de abril?”]. Publicado em 11 de abril de 2016. Disponível em: insidetkd.com/news/articleView.html?idxno=923
Mookas.com. “최홍희와 태권도” [“Choi Hong-hi e o Taekwondo”]. Publicado em 4 de outubro de 2001. Disponível em: mookas.com/news/1307
Mookas.com. “태권도 창시자라고 자처하는 최홍희는 왜 역사를 날조했을까?” [“Por que Choi Hong-hi, que se autointitula fundador do Taekwondo, teria falsificado a história?”]. Publicado em 8 de junho de 2001. Disponível em: mookas.com/news/1095
허건식 (Heo Geon-sik). “태권도를 만든 사람들” [“As pessoas que criaram o Taekwondo”]. Jungbu Maeil, 11 de julho de 2019. Disponível em: jbnews.com/news/articleView.html?idxno=1253422
KITF — Korea International Taekwondo Federation. Seção de história institucional. Disponível em: kitf.org/main/page.html?pid=3
