“O cidadão só recebe justiça quando o advogado tem condições reais de exercer o seu trabalho.” Uma conversa aberta com o presidente da OAB-SC, Dr Juliano Mandelli.

Mal concluo a rampa de acesso ao segundo andar e, antes mesmo de eu anunciar o nome, alguém já se adiantava com um café fumegante em xícara branca, leve, com o brasão da OAB-SC em relevo. Não era só cortesia: era discurso visual. Aquela xícara dizia, sem uma única palavra, que ali a advocacia é recebida sentada, ouvida de perto, tratada com o tato de quem sabe que o ofício vive, ou fenece, no detalhe humano.

A assessoria, atenta ao ritmo da casa, logo informa: nada de gabinete hoje. É melhor gravar no estúdio de podcast da Ordem. Outro gesto silencioso. Sai a liturgia do poder, entra o espaço que sugere conversa, não audiência; diálogo, não protocolo. Era a senha de que aquela entrevista não seria uma visita burocrática ao topo da advocacia catarinense, mas um retorno ao ofício essencial: ouvir, cruzar mundos, abrir a porta da instituição para além do corredor de mármore.

No estúdio, luz suave, mesa redonda e uma disposição espontânea que derruba hierarquias. O gravador marca o 3, 2, 1 e começa o Café com Careca.

Juliano Mandelli chega com sotaque misturado pelo caminho: nascido em Caçador, moldado por Balneário Camboriú desde 1988, e agora assentado no centro simbólico da advocacia catarinense. Ele fala sem pressa, sem a retórica exuberante que às vezes acompanha o cargo. Prefere a firmeza tranquila de quem sabe que, no fundo, liderar a OAB é uma tarefa de escuta.

— A nossa intenção sempre foi ter uma instituição popular, ele diz, e popular no sentido de estar presente no interior, na capital, no município mais remoto. O advogado precisa sentir a presença do sistema OAB com ele.

A tecnologia, nesse discurso, não aparece como fetiche. Surge como ponte. Reuniões híbridas, comissões temáticas reunindo colegas de todo o estado, eventos no oeste e no litoral, votações recordes no quinto constitucional. A OAB como território contínuo, não um centro irradiando monólogos. É essa a engenharia invisível que Mandelli tenta sedimentar: a de uma instituição que abraça, não apenas administra.

Quando o tema vira inteligência artificial, o presidente não se esquiva da turbulência que o assunto provoca. Em vez de medo ou euforia, responde com pragmatismo:

— O novo estagiário do advogado vai ser a inteligência artificial.

Não é provocação; é diagnóstico. O trabalho braçal, pesquisa de jurisprudência, redação preliminar de peças, organização de argumentos, será absorvido pela máquina. Mas o coração do processo, ele insiste, não muda: “a visão estratégica, a compreensão do caso, a decisão sobre o que é relevante” seguem humanas. O risco, ele admite, está na tentação de terceirizar o pensamento.

— O advogado precisa ler o processo, compreender o caso. Sem isso, ele não sabe se o que a IA entrega faz sentido.

Há ali uma preocupação geracional, não com nostalgia de biblioteca, mas com o perigo do vazio formativo. A era dos bacharéis multiplicados em escala industrial deixou cicatrizes, e o presidente nomeia sem hesitação o que muitos evitam: “um estelionato educacional”. A proliferação de cursos, a evasão silenciosa, a formação apressada de massificação. Ele não romantiza o passado, mas reforça: “qualidade, não quantidade”.

O assunto muda, mas permanece na espinha dorsal da instituição: a judicialização crônica do país e a autocomposição. Mandelli devolve a pergunta à cultura brasileira. Um país educado para litigar, que vê no conflito imediato a solução natural para qualquer desconforto, do atraso de voo à cerca mal posicionada.

Ainda assim, ele vê no diálogo com Ministério Público, Defensoria e Judiciário um compromisso institucional, desde que o advogado esteja presente. Autocomposição sem orientação jurídica, repete, “não é acordo: é risco”.

Fala também das metas impostas pelo CNJ, e a crítica escapa com um realismo raro de se ouvir em voz alta:

— Justiça não se faz com meta. Se faz com qualidade.

Não é rebeldia; é alerta. A produtividade, quando convertida em objetivo absoluto, empurra o sistema para um modelo industrial, fordista, onde a sentença se aproxima mais de uma linha de montagem do que de um ato deliberativo. “Quantas dessas sentenças fizeram justiça?”, ele pergunta, e o silêncio da questão diz mais do que a resposta.

As prerrogativas ocupam um capítulo particular da conversa, e aqui, o tom muda. A voz do presidente, habitualmente mansa, ganha densidade.

— Prerrogativa não é privilégio. É instrumento para defender o cidadão.

Ele recorda episódios históricos, o papel da advocacia durante o regime militar, as conquistas arrancadas a golpes de coragem e risco real. Da conversa reservada com o preso à sustentação oral no tribunal, tudo isso, cada centímetro, foi ganho com suor, e às vezes com sangue.

Por isso, qualquer gesto de desprestígio institucional em instâncias superiores, ele observa, ecoa até o chão da Justiça. “É pedagógico”, diz. O que se faz no Supremo se replica em Cunhaporã.

Quando a entrevista se aproxima do fim, pergunto como ele enxerga 2025 e o que leva para 2026. Mandelli respira fundo antes de responder, como quem revisita mentalmente as estradas do estado.

— Eu fui às 53 subseções. Conversei com todo mundo. Fui o primeiro presidente a fazer isso.

Não é jactância; é balanço de gestão. Uma OAB que se move, que se coloca à disposição, que aparece onde o advogado está.

Ele fala do time, da articulação técnica, das respostas rápidas, da preparação. Há um orgulho quieto na voz: não pessoal, mas coletivo.

No epílogo, a conversa abandona a institucionalidade e entra no terreno íntimo do homem que preside uma das entidades mais influentes do estado. Os hobbies aparecem quase com humor:

— Se eu fosse trabalhar com o que eu amo mesmo, estaria jogando no Barcelona ou cantando rock. Mas como não tenho talento nenhum…

Futebol com os amigos, violão, churrasco campeiro, família. O final de semana é “intocável”. Aos sábados e domingos, o presidente da OAB desaparece, e fica só o pai, o marido, o homem comum que encerra a semana tocando a vida como qualquer outro.

E, ao falar de futebol, o olhar entrega o torcedor incorrigível:

— Eu sou vascaíno. Então eu me iludo fácil.

A pergunta final, a caneta mágica que mudaria o Brasil, ele responde sem hesitar: educação. Não como slogan, mas como eixo civilizatório. Evoca Coreia do Sul, Japão, Chile. Lembra que nenhum país deu salto histórico sem escola forte, sem projeto pedagógico, sem investimento real.

Quando desligamos os microfones, o som da entrevista ainda pairava no ar. Devolvo a xícara personalizada, agora vazia, e percebo que a semiótica do café fazia sentido desde o primeiro minuto. Naquele pequeno gesto, no estúdio aberto, na recusa ao gabinete, estava a síntese da conversa inteira: uma advocacia que se vê como serviço público, não como torre isolada.

Saio pela porta da OAB com a sensação de que, por trás da liturgia institucional, há um presidente que prefere estradas a discursos, presença a pompa, e tecnologia com humanidade, nunca em substituição a ela.

Um café que começou com acolhimento termina com um retrato: o de uma instituição que tenta, em tempos turbulentos, reencontrar sua própria voz. E o de um advogado que, ao conduzi-la, insiste em ouvir antes de falar.

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