Em uma palestra para estudantes de Direito e Psicologia da Estácio Sá, a desembargadora Hildemar Meneguzzi de Carvalho entra no auditório e decide começar pelo fim, e pelo amor.
Ela chegou com um livro debaixo do braço e uma pergunta na ponta da língua. Não era o tipo de pergunta que se espera de alguém que passou quatro décadas nos corredores do Tribunal de Justiça de Santa Catarina. Era mais simples do que isso. Quase perturbadora.
Levante a mão quem nunca sofreu violência em sua família.
A sala ficou quieta. Uma mão tímida subiu. Uma só.
A desembargadora Hildemar sorriu, com o tipo de sorriso de quem já viu essa cena muitas vezes e ainda assim não se acostumou. Então começou a falar sobre os bisavós que ninguém conheceu, sobre as histórias que nunca foram contadas, sobre a violência que não deixa marca na pele mas atravessa gerações inteiras como uma corrente subterrânea.
Ela estava ali, num evento da Semana Acadêmica de uma faculdade catarinense, para falar sobre violência doméstica. Mas escolheu começar por outra coisa: pela sua própria família.
O Casamento que Ninguém Escolheu
Seu pai ia a cavalo até a casa da moça. Duas, três vezes. Achava que estava namorando. Num domingo, a irmã mais velha chegou da missa com uma notícia: o padre havia anunciado o casamento. Ele ficou boquiaberto. Com quem? Com a Idelvina. A família da moça havia entendido as visitas como pedido de casamento.
As duas famílias se reuniram. Acertaram tudo. E pronto: dois jovens que não tinham se escolhido se tornaram marido e mulher.
Isso só ficou claro depois que meu pai morreu, contou ela, com a voz pausada de quem pesa as palavras antes de soltá-las. Minha mãe teve coragem de nos contar que ela estava de olho no vizinho. E meu pai estava interessado na irmã mais nova dela.
A plateia de estudantes ouviu em silêncio. A desembargadora não precisou explicar a moral da história. Ela já estava no ar, suspensa entre as fileiras de cadeiras: a violência não começa sempre com um grito ou um soco. Às vezes começa com um silêncio de décadas.
Ela chama isso de violência emocional. E diz que é a mais grave de todas. Porque quando chega a violência física, e ela sempre chega depois, a emocional já mora dentro da pessoa há muito tempo.
88 Pedidos de Socorro por Dia
Os números que ela apresentou não são abstratos. São nomes que ela nunca vai esquecer. Em 2022, o Tribunal de Justiça de Santa Catarina deferiu mais de 23 mil medidas protetivas de urgência. Em 2023, 28 mil. Em 2024, 30 mil. Em 2025, 31 mil. Em 2026, o ritmo não desacelerou.
São 88 pedidos de socorro por dia, disse ela, deixando o número pousar sobre a sala. E vocês acham que esse número representa a realidade? Não é. A subnotificação é enorme.
As mulheres do interior, as mulheres rurais, as que vivem longe das cidades, muitas delas sequer sabem que têm direito a pedir socorro. Não têm acesso à internet, não têm transporte, não conhecem o número da delegacia. E mesmo as que sabem, muitas vezes não confiam nas instituições o suficiente para dar o passo.
Os feminicídios contam uma história paralela e ainda mais dura: 56 em 2022, números similares em 2023 e 2024, 52 em 2025 e já mais de 25 no início de 2026, quando a desembargadora falou para aquela plateia e o número ainda estava subindo.
Santa Catarina orgulha-se de ser um dos estados mais seguros do Brasil. Para as mulheres, esse orgulho tem um asterisco.
Escuta, Uma Arte que o Direito Ainda Aprende
Hildemar tem 36 anos de magistratura. Passou por Videira, Fraiburgo, Caçador, Jaraguá do Sul, São Francisco do Sul, Joinville, Chapecó, até chegar a Florianópolis. Em cada cidade, uma comarca. Em cada comarca, centenas de processos de família.
Foi nesse percurso que ela sentiu que o direito, sozinho, não era suficiente. Então foi fazer faculdade de psicologia, enquanto ainda era juíza de primeiro grau.
Existe uma interface muito grande entre o direito e a psicologia, ela disse. E nós, no tribunal, trabalhamos exclusivamente com as consequências. Vocês têm a possibilidade de trabalhar com a prevenção.
Ela lançou o olhar sobre os estudantes de psicologia presentes na sala com algo próximo da esperança.
Mas fez um alerta: quando uma vítima de violência doméstica chega até você, não seja curioso. Não pergunte o que aconteceu em detalhes. Não pergunte que roupa ela usava. Não pergunte por que ficou com ele.
Façam um acolhimento, disse ela, como se a palavra “acolhimento” fosse um verbo técnico que o direito ainda não aprendeu a conjugar direito. Escutem sem julgamento. E encaminhem.
A revitimização, o ato de fazer a mulher reviver o trauma para contar e recontar a história, é um crime silencioso dentro do próprio sistema que deveria protegê-la. E ela não tem paciência para isso.
O Projeto que Chegou ao Brasil Todo
Nos bastidores do Tribunal de Justiça, há dois projetos que ela menciona com orgulho contido.
O Projeto Espelho reúne grupos reflexivos para mulheres, encontros onde elas podem falar, ser ouvidas, entender o ciclo da violência sem ser julgadas.
O Projeto Ágora faz o mesmo, mas para os homens que receberam medidas protetivas. Encontros quinzenais, pelo menos doze sessões, coordenados por psicólogas. O objetivo não é punir: é interromper.
Só eu posso mudar o meu comportamento violento, ela explicou, com a precisão de quem já viu essa equação falhar das duas direções. O homem pode ser mandado embora, mas se ele não mudar, a violência vai junto com ele para o próximo relacionamento.
O Projeto Ágora funcionou tão bem em Santa Catarina que o Conselho Nacional de Justiça levou a coordenadora para Brasília e começou a replicar o modelo para o Brasil todo.
Isso não é uma conquista do judiciário, ela fez questão de dizer. É uma conquista de todos nós.
A Sorte e a Posse
No início da fala, ela propôs um sorteio. Dois exemplares do seu livro, Pacto de Amor: O Caminho da Guarda Compartilhada, recém-lançado nos Estados Unidos. Para participar, cada aluno precisava adivinhar uma data, dia e mês.
A sala foi tentando. Maio, outubro, agosto, fevereiro. Até que alguém chegou perto.
22 de maio? Esse foi o dia em que tomei posse no Poder Judiciário de Santa Catarina, ela confirmou. Em 1989. Tenho 36 anos de magistratura.
Foi um instante pequeno, quase protocolar. Mas revelou algo sobre ela que os números e estatísticas não conseguem: há dentro dessa mulher de 1,59 metros, casaco e vestido azul com detalhes geométricos, uma história longa o suficiente para que a data da sua posse seja uma surpresa difícil de adivinhar, e uma certeza que ela ainda carrega com cuidado.
Antes de encerrar, ela fez um último pedido à faculdade: adotar a Campanha do Sinal Vermelho, o X desenhado na palma da mão que, desde a pandemia, virou um código silencioso de socorro. Uma lei federal. Uma ferramenta simples.
Nós temos que começar a falar mais de amor e menos de guerra, ela disse. Senão, não vamos mudar o cenário triste que temos aqui em Santa Catarina.
E foi embora com seus livros, suas estatísticas e sua história de família, a que ela herdou, a que ela construiu e a que ela ainda está tentando, depois de quatro décadas, ajudar outras pessoas a não repetir.
A desembargadora Hildemar Meneguzzi de Carvalho atua no Tribunal de Justiça de Santa Catarina e integra as comissões de prevenção ao assédio moral, assédio sexual e discriminação do Poder Judiciário catarinense.
Falou na Semana Acadêmica Nacional “Viver Bem de Verdade”, promovida pela Estácio, em 6 de maio de 2026. Seu livro “Pacto de Amor: O Caminho da Guarda Compartilhada” está em segunda edição.

