A cada dez processos que chegam à Justiça do Trabalho catarinense, mais de um trata de um corpo adoecido.

Os números chegaram sem alarde, como costumam chegar as estatísticas que revelam algo que já estava acontecendo há anos. Em 2025, o Tribunal Regional do Trabalho da 12ª Região registrou 12.450 processos envolvendo acidentes de trabalho, doenças ocupacionais e assédio em Santa Catarina. O volume representa um aumento de 42% em relação aos 8.764 casos de 2024 e equivale a 12,5% de todas as ações distribuídas no estado no período. Em 2024, esse percentual era de 10,2%.

A cada dez processos que chegam à Justiça do Trabalho catarinense, mais de um trata de um corpo adoecido, um acidente que não deveria ter acontecido ou de um ambiente de trabalho hostil. A tendência não é nova, mas a aceleração preocupa.

Uma curva que só sobe

De 2019 para cá, foram ajuizados mais de 28 mil processos com esse perfil, com destaque para os dois últimos anos, quando os números ultrapassaram a marca dos 5 mil casos anuais. O crescimento de 2024 havia sido de 24%, depois de 28% em 2023. O salto para 42% em 2025 indica que a curva não está desacelerando.

Dentro do recorte de 2025, a maior parte dos casos está concentrada em doença ocupacional, com 5.016 processos, e em acidentes de trabalho, com 4.845. O assédio moral passou de 2.363 para 3.343 processos, e o assédio sexual subiu de 230 para 372 casos. O TRT-SC recebeu ainda 125 ações por condições degradantes e 12 por limitação do uso do banheiro.

Esse último dado merece ser lido com atenção. Trabalhadores levando ao Judiciário a questão do direito de ir ao banheiro não é uma anomalia jurídica. É um sintoma de como certas relações de trabalho no Brasil ainda operam.

O Oeste catarinense no centro do mapa

Chapecó concentra 22% dos processos ligados à saúde e segurança do trabalho no acumulado de 2024 e 2025, somando 3.308 casos nas quatro unidades do foro. Na sequência aparecem Joaçaba, com 19%, e São Miguel do Oeste, com 18%.

A geografia não é coincidência. O Oeste catarinense é a capital brasileira da agroindústria, e os frigoríficos figuram de forma recorrente nas estatísticas do tribunal. A juíza do trabalho Lisiane Vieira, coordenadora regional do Programa Trabalho Seguro em Joaçaba, destaca que a maior parte das ações indenizatórias na jurisdição envolve a agroindústria. Como há muitos frigoríficos na região, a maior parte dos processos tem como pedido principal indenização em razão de doença ocupacional.

O trabalho em frigoríficos envolve temperaturas baixas, movimentos repetitivos, ritmo intenso de produção e exposição constante a instrumentos cortantes. O resultado, ao longo de anos, aparece nas articulações, nos tendões e nos registros do TRT.

Uma das respostas institucionais a esse cenário foi a criação da Norma Regulamentadora 36, a NR-36, que trata da segurança e saúde dos trabalhadores em frigoríficos, resultado direto de ações judiciais que buscavam impor pausas, rodízios e redução do ritmo de produção. A norma existe. Mas os processos continuam crescendo.

O assédio que ganhou nome e voz

Durante décadas, o assédio moral e sexual no trabalho foram tolerados, naturalizados ou simplesmente ignorados. O que mudou não foi apenas a lei, mas a disposição de nomear o que acontecia.

Em 2025, até abril, já haviam sido protocoladas 1.084 ações sobre assédio no TRT-SC, representando 3,5% do total de processos recebidos no período, índice ligeiramente superior aos 3% registrados em todo o ano anterior.

O fenômeno não é exclusivo de Santa Catarina. Dados do Tribunal Superior do Trabalho apontam o recebimento de 142.814 novos processos sobre assédio moral em 2025, aumento de 22,3% em comparação com 2024. No âmbito extrajudicial, o Ministério Público do Trabalho contabilizou 18.207 denúncias no mesmo período, alta de 26,9% em relação ao ano anterior.

Parte desse crescimento reflete algo positivo: mais trabalhadores conhecendo seus direitos, mais canais de denúncia disponíveis, menos vergonha de falar. Mas parte reflete também um ambiente de trabalho que continua produzindo situações inaceitáveis.

O que os números não mostram

Cada processo no sistema do TRT-SC é uma história. Um trabalhador que perdeu um dedo na linha de produção. Uma funcionária que suportou meses de humilhações até não aguentar mais. Um motorista que voltou do trabalho com dores nas costas que nunca passaram. A estatística registra o processo, mas não registra o tempo perdido, a renda comprometida ou o custo emocional de levar um conflito trabalhista à Justiça.

Estudo do Ministério do Trabalho e Emprego aponta que os acidentes de trabalho atingiram recorde em 2025 no Brasil, com crescimento da participação feminina, que passou a representar 34,2% dos registros, com aumento de 48% ao longo da série, especialmente em setores como saúde e serviços.

O crescimento de 42% nos processos do TRT-SC pode ser lido como um sinal de que o sistema funciona, que os trabalhadores estão sendo ouvidos. Mas é também um diagnóstico. Uma Justiça do Trabalho que recebe mais processos sobre adoecimento não é sintoma de saúde. É o retrato de um problema que ainda não foi resolvido na origem.

Dados extraídos do levantamento da Coordenadoria de Estatística do Tribunal Regional do Trabalho da 12ª Região (TRT-SC).

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