Há algo de paradoxal, e profundamente revelador, no jornalismo contemporâneo. No exato momento em que saber comunicar-se torna-se uma competência central para praticamente todas as profissões, o jornalismo, justamente o campo historicamente legitimado como especialista da comunicação pública, parece viver uma crise de identidade. Não se trata apenas de uma crise econômica, tecnológica ou geracional. Trata-se de uma crise discursiva.
Desde o início dos anos 2000, pesquisadores como Jean-Michel Utard já apontavam para um processo de hibridização dos gêneros midiáticos: uma dissolução progressiva das fronteiras que separavam práticas discursivas historicamente distintas, informação, opinião, entretenimento, publicidade, narrativa literária. À época, o fenômeno ainda parecia “confuso”, em formação. Hoje, ele é estrutural.
A juniorização das redações e o empobrecimento do contrato
Um dos sintomas mais visíveis desse processo é a juniorização das redações. A substituição de jornalistas experientes por profissionais mais jovens, muitas vezes multitarefas, mal remunerados e pressionados por métricas de engajamento, não é apenas uma questão trabalhista. Ela tem consequências diretas sobre a qualidade simbólica do jornalismo.
O domínio dos gêneros, dos tempos narrativos, da ética da mediação e, sobretudo, da noção de responsabilidade pública exige maturidade profissional. Quando esse capital simbólico se perde, o que entra em seu lugar é uma escrita funcional, acelerada, reativa e frequentemente acrítica. O jornalista deixa de ser mediador para tornar-se operador de fluxo.
Nesse cenário, o que Patrick Charaudeau chama de contrato de comunicação entra em colapso. Se o gênero jornalístico é um pacto, “eu te informo segundo certas regras e você me concede credibilidade”, a instabilidade das formas narrativas corrói esse acordo silencioso com o público.
Valores-notícia líquidos em tempos líquidos
A crise dos gêneros caminha lado a lado com a crise dos valores-notícia. Critérios como relevância pública, interesse coletivo, impacto social e hierarquização factual tornam-se cada vez mais fluidos, instáveis, negociáveis.
Aqui, a leitura de Zygmunt Bauman ajuda a compreender o fenômeno. Vivemos sob a lógica da liquidez: nada é feito para durar, tudo precisa circular, viralizar, performar. O valor da notícia não está mais apenas em sua importância, mas em sua capacidade de reter atenção.
O resultado é um jornalismo orientado menos pela pergunta “isso importa?” e mais por “isso engaja?”. A notícia torna-se produto emocional, desenhada para provocar reação imediata, indignação, medo, riso, identificação, frequentemente em detrimento da complexidade.
Do hiperentretenimento à homogeneização narrativa
Esse deslocamento favorece o avanço do hiperentretenimento. Informação e diversão deixam de ser campos tensionados para se tornarem praticamente indissociáveis. Não por acaso, Umberto Eco já identificava, nos anos 1980, com a noção de neo-TV, o início dessa confusão de regimes discursivos: política como espetáculo, jornalismo como show, notícia como performance.
Hoje, essa lógica se estende a todas as plataformas, inclusive, e talvez principalmente, ao jornalismo sonoro. Rádio, podcast, streaming informativo: tudo tende a adotar estruturas narrativas semelhantes, vozes parecidas, ritmos padronizados. Forma-se um processo de homogeneização narrativa em que “tudo soa igual”, ainda que trate de assuntos distintos.
A entrada da inteligência artificial nas redações não inaugura esse processo, mas o acelera. A IA opera por padrões, recorrências e probabilidades. Em ambientes já pressionados por velocidade e escala, ela reforça fórmulas narrativas, reduz riscos estilísticos e enfraquece a autoria. O resultado pode ser eficiência operacional, mas também empobrecimento simbólico.
A grande ironia contemporânea
E aqui reside a grande ironia: enquanto o jornalismo enfrenta dificuldades para sustentar sua identidade discursiva, outras profissões descobrem a comunicação como ativo central. Advogados, médicos, professores, gestores, influenciadores institucionais, todos são hoje cobrados não apenas por saber fazer, mas por saber dizer, explicar, traduzir, narrar.
A comunicação deixa de ser monopólio do jornalismo e passa a ser competência transversal. Isso não é, em si, um problema. O problema é quando o jornalismo abdica de seu diferencial: a capacidade de organizar o caos informacional a partir de critérios públicos, éticos e verificáveis.
Temos, portanto, uma dicotomia inquietante:
– a comunicação se fortalece como valor social;
– o jornalismo, enquanto forma específica de comunicação, enfraquece seus contornos.
Pensar essa tensão é tarefa urgente para pesquisadores, formadores e profissionais. Não para defender nostalgias de um passado idealizado, mas para recolocar a pergunta essencial: o que torna o jornalismo distinto, e necessário, em meio à confusão de vozes?
Talvez a resposta não esteja em resistir à hibridização, mas em compreendê-la criticamente. Reconhecer que os gêneros mudam, mas que os princípios, mediação responsável, compromisso com o público, clareza de contrato, não podem se dissolver na mesma velocidade que os formatos.
Porque, no fim, quando tudo comunica, aquilo que comunica com sentido público torna-se ainda mais raro, e mais valioso.
