Por que a formação marcial deve integrar o debate sobre prevenção

Os dados mais recentes consolidados pelo Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, revelam um cenário que exige mais do que indignação: em 2025, o Brasil registrou média aproximada de quatro feminicídios por dia.

O número não apenas escancara a permanência da violência de gênero, como também impõe uma reflexão incômoda: as estratégias adotadas até aqui têm sido suficientes para proteger as mulheres? Segundo a Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada em 2025 pelo DataSenado, cerca de 3,7 milhões de brasileiras sofreram violência doméstica ou familiar nos últimos 12 meses. Nesta amostra representativa, 71% das agressões ocorreram na presença de outras pessoas, muitas delas crianças, o que amplia o impacto social e psicológico desse tipo de violência.

A resposta, à luz dos dados e da realidade cotidiana, parece ser negativa.Sempre comento em minhas aulas sobre os benefícios da Lei Maria da Penha e legislação endurecida para feminicídios. Contudo, ambos os casos atuam posteriormente ao crime. Então reitero: isso traz segurança para você, leitora?

O limite das respostas exclusivamente normativas

A ampliação de políticas públicas, campanhas educativas e o fortalecimento da legislação são avanços inegáveis. No entanto, a violência não se manifesta apenas no plano jurídico ou simbólico. Ela ocorre no corpo, no espaço físico, na surpresa e na assimetria de força.

A literatura da psicologia comportamental e da neurociência demonstra que, diante de uma ameaça real, o ser humano aciona respostas automáticas conhecidas como luta, fuga ou congelamento (fight, flight or freeze). Em especial, o congelamento – caracterizado pela incapacidade momentânea de reagir – é altamente frequente em situações de agressão inesperada.

Segundo estudos de Bessel van der Kolk (2014), referência mundial no estudo do trauma, o corpo reage antes da consciência racional. Quando não há treino prévio, o cérebro tende a paralisar.

Isso ajuda a compreender por que orientações puramente teóricas ou campanhas de conscientização, embora importantes, não são suficientes para garantir proteção efetiva.

Artes marciais como formação psicofísica, não como violência

O senso comum ainda associa artes marciais à agressividade. Do ponto de vista científico e pedagógico, trata-se de um equívoco.

Pesquisas na área da psicologia do esporte e da aprendizagem motora indicam que treinamentos que envolvem:

  • contato controlado,
  • tomada de decisão sob estresse,
  • coordenação motora complexa,
  • exposição progressiva ao risco,

favorecem o desenvolvimento de respostas automáticas adaptativas, fundamentais em situações de ameaça real.

Estudos como os de Schmidt & Lee (2011), sobre aprendizagem motora, demonstram que o corpo responde com maior eficiência quando já foi exposto a estímulos semelhantes em ambiente controlado. O mesmo princípio é adotado em treinamentos policiais, militares e de emergência.

Nesse contexto, as artes marciais cumprem um papel essencial, não ensinam a agredir, mas a reagir, proteger-se e manter o controle emocional sob pressão.

A diferença entre conhecer e estar preparado

Cursos pontuais de defesa pessoal têm valor introdutório. Ajudam a romper o medo inicial e demonstram que a reação é possível. No entanto, do ponto de vista técnico, não criam repertório neuromotor suficiente para situações reais.

A diferença entre saber o que fazer e conseguir fazer sob estresse é decisiva.

A prática contínua:

  • reduz o tempo de resposta,
  • melhora a percepção de risco,
  • diminui o congelamento emocional,
  • fortalece a autoconfiança,
  • aumenta as chances de autopreservação.

Não se trata de transformar mulheres em lutadoras, mas de permitir que seus corpos reconheçam o perigo e saibam agir diante dele.

A dimensão social do problema

Há um aspecto que o debate público muitas vezes evita: a violência contra a mulher não será erradicada no curto prazo apenas por meio de campanhas educativas.

A formação de uma nova cultura masculina é indispensável – mas é um processo geracional. Enquanto isso, mulheres seguem expostas.

Negar essa realidade é transferir o custo da ineficiência social para as vítimas.

Preparar mulheres para se defenderem não significa aceitar a violência como normal. Significa reconhecer o contexto real em que ela ocorre.

Educação masculina e responsabilidade coletiva

Homens que compreendem a gravidade do problema têm papel fundamental nesse processo. Não apenas no discurso, mas na prática:

  • incentivando o treinamento feminino
  • apoiando ambientes seguros de aprendizagem
  • combatendo a romantização da fragilidade
  • ensinando respeito pelo exemplo

A prevenção da violência não é uma pauta ideológica. É uma questão de saúde pública, educação e responsabilidade social.

Os dados do Sinesp são claros. A violência é real, recorrente e letal.

Enquanto políticas públicas avançam, e devem avançar, é preciso reconhecer que o corpo também precisa ser educado para sobreviver.

As artes marciais, quando ensinadas com responsabilidade pedagógica, são ferramentas legítimas de prevenção, fortalecimento psicológico e autoproteção. Por isso, insisto em ofertar seminários de defesa pessoal técnica e teórica sobre a violência contra a mulher. E ao longo destes vinte anos, as percepções psicológicas durante o treino ainda causam mais espanto. São dezenas de mulheres que não anteveem situações. Não filtram as possibilidades de risco.

Sonho um dia não precisar ministrar estes cursos. Não por cansaço, mas por ser desnecessário. Até lá. Leitoras, treinem, ousem se proteger. Façam os seminários, cursos, workshops e encontrem um meio de treinar o corpo e a mente. Com disciplina. Essa ações não substituem a lei.
Não resolvem o problema sozinhas.
Mas salvam tempo.
E, muitas vezes, salvam vidas.

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