Em um mundo cada vez mais veloz, onde artes marciais muitas vezes se reduzem à performance e ao espetáculo, é essencial recordar que o Taekwondo tradicional é, antes de tudo, um caminho, o “Do” (도 / 道). Esse caminho não se limita ao tatame. Ele se expande para a vida cotidiana, para os relacionamentos humanos e para o cultivo da mente e da ética.
Particularmente eu tenho visto uma movimentação neste sentido vindo da Coreia do Sul. Em contrapartida a preguiça filosófica que paira no ocidente. Este mês num curso do Kukkiwon para mestres, um detalhe chama atenção: ao lado de mestres como Confúcio, Laozi e Platão, aparece o Rei Sejong, o Grande, figura histórica da Coreia. Mas o que une esse rei-filósofo ao Taekwondo e ao conceito do Do?
Vamos explorar.
O Que é o “Do” no Taekwondo?
Na raiz do termo Taekwondo está o ideograma “Do”, que significa “caminho”, “via”, ou “princípio”. No contexto marcial, refere-se a muito mais do que técnica — representa a busca pela harmonia entre corpo, mente e espírito, baseada em princípios éticos como:
• Virtude
• Sabedoria
• Coragem
• Respeito e humildade
Esses valores estão presentes não apenas no treinamento, mas também na forma como o praticante se posiciona no mundo. Eles ecoam ideias presentes nas tradições filosóficas orientais e ocidentais como o Confucionismo, o Taoismo e até o pensamento socrático. Importante lembrar que a sociedade coreana ainda bebe na fonte da estrutura confucionista em suas relações. Evidente que não mais com a mesma intenisdade, da época de Joseon, mas ainda é muito presente.
As Fontes da Filosofia do Do
Confúcio: Ética nas Relações Humanas
Confúcio acreditava que a ordem pessoal e social dependia de um elemento essencial: o cultivo da virtude através da prática cotidiana. Entre todas as virtudes, a mais elevada era o Ren palavra que, embora comumente traduzida como benevolência, carrega um sentido muito mais complexo e denso.
Ren, no pensamento confucionista, é:
A capacidade de ver o outro como extensão de si mesmo.
A disposição constante para agir com humanidade, compaixão e moralidade relacional.
Uma virtude ativa, não passiva, é preciso praticar o Ren todos os dias, em todos os gestos, por menores que sejam.
No Taekwondo, essa ideia ecoa no conceito de Do, o caminho, a via, o princípio orientador da vida marcial. O Do não é simplesmente um código externo de conduta, mas um projeto ético de formação do ser humano, similar ao Junzi idealizado por Confúcio: o ser superior, moralmente cultivado.
Enquanto Confúcio ensinava que a ética não está nos grandes discursos, mas nos pequenos rituais cotidianos (como respeitar os pais, ouvir o outro com atenção ou dominar o impulso de raiva), o Taekwondo ensina isso por meio da disciplina do treinamento:
Cumprimentar ao entrar no dojang.
Ajustar o dobok antes da aula.
Ouvir as instruções sem interromper.
Ajudar o colega menos graduado.
Ceder o lugar, mas manter a firmeza.
Essas ações, por mais simples que pareçam, são manifestações práticas de Ren. Elas moldam o caráter no longo prazo, exatamente como a filosofia confucionista propõe.
Laozi: O Caminho Natural
Laozi, no clássico Tao Te Ching, escreve:
“O sábio não acumula. Quanto mais faz pelos outros, mais tem.”
“O Tao gera o Um, o Um gera o Dois, o Dois gera o Três, e o Três gera todas as coisas.”
Nesse ensinamento, não há uma busca por controle, força ou acúmulo, mas por fluxo, desapego e equilíbrio. O Tao é o caminho da natureza: aquilo que age sem esforço, se impõe sem opressão, transforma sem dominar. Um rio não briga com as pedras, mas as contorna, e no tempo certo, as molda.
O ideograma de (Tao/Do) significa “caminho”, “via”, mas não qualquer caminho — trata-se de um caminho existencial, sutil, dinâmico, que pode ser seguido, mas nunca possuído. O Tao, para Laozi, é como o ar: vital, presente, mas impossível de capturar.
No Taekwondo, o “Do” é o espírito que guia a prática. Ainda que a origem coreana tenha forte influência confucionista, o Do também carrega elementos taoístas:Movimento contínuoAtenção à respiraçãoRitmo orgânico entre ataque e defesaEscuta do corpo e do oponenteAceitação do momento presente
Um praticante que compreende o Tao aprende a agir sem agressividade gratuita, a esperar o momento certo para se mover, a usar a força do outro contra ele, como na ideia do “agir sem agir” que não é passividade, mas ação em perfeita harmonia com a situação.
Laozi dizia:
“A suprema bondade é como a água. Ela beneficia todas as coisas e não compete. Vai aonde os outros evitam. Por isso está próxima do Tao.”
Essa metáfora é profunda para quem treina artes marciais. A água: Adapta-se ao recipiente, assim como o praticante deve se adaptar ao adversário e às circunstâncias. É flexível, mas irredutível, como o espírito de quem não se quebra diante das dificuldades. Flui com suavidade, mas desgasta a rocha, como o treinamento constante e humilde, que supera a força bruta. O verdadeiro mestre de Taekwondo entende isso quando luta sem se exibir, vence sem humilhar, corrige sem ferir e ensina sem impor.
Laozi adverte contra o orgulho, o acúmulo, o excesso. O sábio não acumula, porque sabe que o que é essencial flui, não se guarda. No contexto do Taekwondo, isso é um lembrete direto para os faixas-pretas: A graduação é um marco, não um trono. O saber deve ser compartilhado, não acumulado. O reconhecimento virá, mas só a humildade o sustenta.
O praticante que compreende o Tao se torna menos reativo e mais reflexivo. Ele aprende a “ser como a água”: livre, mas com direção. Gentil, mas com firmeza. Presente, mas nunca fixo.
Embora o Taekwondo, como arte coreana moderna, seja marcado por valores estruturados, há espaço e necessidade para o espírito do Tao. Ele aparece quando: O chute é fluido, não forçado. O combate é uma dança, não um embate. A mente está tranquila mesmo sob pressão. A vitória vem pela precisão, não pelo volume de golpes.
Tao e Do são, em essência, o mesmo caminho com sotaques diferentes. Segui-lo exige mais do que força. Exige consciência, desapego e harmonia.
Platão: A Virtude como Conhecimento
Na tradição grega, Platão via a realidade dividida entre o mundo sensível (do corpo, das
aparências, da matéria) e o mundo inteligível (das ideias, da razão, da verdade). Para ele, a educação verdadeira é aquela que liberta a alma das ilusões e a conduz ao conhecimento do bem.
Essa ideia aparece de forma brilhante na alegoria da caverna, em A República, mas também nos diálogos Fédon, Timeu e Górgias. Platão afirma:
“A alma do homem é, por natureza, racional e deseja a verdade; o corpo, quando desgovernado, pode ser obstáculo.”
E aqui está o ponto: o corpo só cumpre sua função elevada quando está subordinado à alma ética e racional. Essa concepção não é apenas filosófica, mas educacional e política, a formação do cidadão justo depende do equilíbrio interno entre razão, emoção e impulso físico.
No Taekwondo, há uma conexão direta com esse princípio. A prática física, por mais exigente que seja, não tem valor moral por si só. Um lutador pode chutar alto, mover-se com velocidade, ter força e resistência. Mas se não domina a si mesmo, não passa de um corpo treinado, não de um ser ético.
Isso ecoa uma das ideias centrais de Platão “A alma deve governar, a razão deve comandar, e os apetites devem obedecer.”
Traduzindo para o universo do Taekwondo:
A técnica (apetites) deve ser guiada pela disciplina (razão).
A competição deve estar subordinada ao respeito.
A vitória deve vir com humildade, não com vaidade.
O faixa preta, como o filósofo-rei de Platão, deve saber antes de tudo governar a si mesmo.
Platão estruturava a alma em três partes:
Logistikon (Razão): parte racional, que busca a verdade.
Thymos (Ânimo): parte volitiva, da coragem, honra e determinação.
Epithymia (Desejo): parte inferior, ligada aos impulsos, prazeres e ambições.
Uma alma bem educada seria aquela em que: a razão governa, o ânimo apoia a razão com coragem, os desejos obedecem em equilíbrio.
Em um praticante de Taekwondo, isso se traduz assim:
Logistikon: é o senso de ética, justiça, consciência do impacto das próprias ações.
Thymos: é a energia de luta, a perseverança, o desejo de superação.
Epithymia: é o impulso por medalhas, fama, status que, quando bem canalizado, pode motivar; mas, se descontrolado, corrompe o caráter.
O mestre, portanto, deve cultivar a razão nos alunos, treinar o ânimo e disciplinar os desejos formando não apenas bons lutadores, mas seres humanos equilibrados e justos.
Em A República, Platão define justiça como a harmonia entre as partes da alma e da cidade, cada uma cumprindo seu papel. Esse modelo é perfeito para o Do do Taekwondo.
O corpo (técnica) deve cumprir sua função, mas não dominar.
A mente (disciplina e valores) deve organizar e dar propósito.
O coração (virtude, empatia, honra) deve ser o núcleo moral da prática.
Justiça, nesse contexto, é quando o corpo serve à mente ética e ao coração virtuoso, e não o contrário.
Em tempos de busca por performance e resultados imediatos, o pensamento platônico nos convida a lembrar o verdadeiro valor de uma prática está na elevação da alma.
O Taekwondo, nesse sentido, é educação filosófica em movimento. Cada técnica executada com atenção e respeito, cada ato de autocontrole em combate, cada correção humilde diante do erro, tudo isso é uma aula silenciosa de filosofia platônica.
Assim como o filósofo deve “voltar à caverna” para libertar os demais, o faixa preta deve retornar ao básico, ao respeito, à ética, para lembrar o verdadeiro motivo pelo qual começou esse caminho.
Porque no Do do Taekwondo, como na Academia de Platão, o corpo é apenas uma ponte. O destino é a alma.
Rei Sejong: O Mestre Invisível no Caminho
O Rei Sejong, o Grande, é uma das figuras mais reverenciadas da história coreana por sua visão humanista e compromisso com a educação, a ciência e a justiça social. Foi sob seu reinado que nasceu o Hangul, o alfabeto coreano, criado para que o povo comum pudesse ler e escrever, um ato de inclusão e empoderamento intelectual.
Sejong acreditava que o conhecimento deveria ser acessível, e que a cultura era o maior patrimônio de um povo. Esse ideal ressoa profundamente no Taekwondo moderno: uma arte marcial que carrega em seus movimentos e formas a memória histórica, a ética confucionista e a estética coreana. Para além das competições e demonstrações, o Taekwondo é expressão viva da identidade de um povo que, como ensinava Sejong, resiste não apenas pela força, mas pela sabedoria compartilhada e pela dignidade ensinada. Ensinar Taekwondo, portanto, é também transmitir um legado cultural, uma missão que ecoa o espírito visionário do rei que alfabetizou uma nação.
O Rei Sejong entre esses gigantes do pensamento não é apenas um gesto simbólico: é uma afirmação de que o Do também passa por ações concretas que libertam e educam.
Sejong, ao criar o Hangul, o alfabeto coreano, rompeu com séculos de exclusão cultural. Ele acreditava que o conhecimento deve ser acessível a todos, e que o governo e a educação devem servir ao bem comum. Sua frase célebre resume sua visão. “As palavras da nossa terra são diferentes das da China, e os ignorantes têm dificuldade em escrevê-las. Por isso, eu criei 28 letras que qualquer um pode aprender facilmente.”
Sejong personifica o “Do” no sentido mais elevado: agir com sabedoria, humildade e propósito em favor dos outros.
E essa apresentação de Sejong neste artigo ou na palestra no Kukkiwon é um alerta muito forte sobre a conexão com os fundamentos históricos e culturais que estão incutidos no taekwondo. Negligenicar isso é um ataque ao Do. É cortar as asas de uma ave que caça no ar. Em linhas gerais, parece que o quartel general do taekwondo no mundo, quer provocar, instigar e incentivar que os mestres estudem, leiam e se tornem mais dignos do caminho da nossa arte marcial.
Trazer à tona o pensamento de Sejong e dos grandes mestres é um ato de resistência e de afirmação:
• O Do não é performance: é processo.
• O Taekwondo não é luta: é formação.
• O verdadeiro praticante não é atleta: é discípulo de um caminho.
A presença de Sejong entre mestres da sabedoria antiga nos lembra que o Taekwondo não deve apenas formar campeões, deve formar pessoas virtuosas, conscientes e comprometidas com a melhoria do mundo ao seu redor.
Num momento em que há tantos “caminhos curtos”, o Do exige paciência, estudo, disciplina e serviço.
E é por isso que, entre chutes e formas, faixas e troféus, precisamos também reservar espaço para ler, refletir, escrever e lembrar que o conhecimento, assim como a técnica, é uma arma poderosa.
