O atropelamento ocorrido em Joinville, que levou o Ministério Público de Santa Catarina a apurar riscos no serviço de patinetes elétricos, não é um fato isolado. É apenas mais um episódio de um problema que cresce silenciosamente nas cidades brasileiras: a falsa ideia de que inovação dispensa responsabilidade.
O caso chama atenção, claro. Uma idosa atingida, um condutor que foge, uma empresa que precisa explicar como funciona seu serviço. Mas o debate real vai muito além do episódio específico. Ele escancara algo que qualquer cidadão atento já percebeu ao caminhar pelas ruas: a mobilidade urbana virou um território mal regulado, onde tudo anda – menos o bom senso.
A pergunta que precisa ser feita não é apenas se o patinete é seguro. A pergunta correta é outra: quem está preparado para usá-lo?
A tecnologia não é o problema
Não há dúvida de que os patinetes elétricos são uma ferramenta moderna, eficiente e útil. Pensados para deslocamentos curtos, com velocidade limitada e uso controlado, eles cumprem bem o papel de alternativa urbana sustentável.
O problema começa quando essa lógica se mistura com outras realidades que nada têm a ver com o patinete em si.
Hoje, nas cidades, convivem equipamentos completamente diferentes sob o mesmo olhar permissivo: patinetes compartilhados, bicicletas elétricas e veículos autopropelidos que atingem velocidades elevadas, circulam entre carros e pedestres e exigiriam, no mínimo, preparo e regras específicas.
Tratar tudo como se fosse a mesma coisa é um erro, e um erro perigoso.
O risco não está no meio, mas no uso
Quem anda pelas cidades percebe facilmente que o problema não é o equipamento, mas o comportamento. Patinetes usados em calçadas cheias, veículos elétricos cruzando vias em alta velocidade, condutores sem qualquer noção de prioridade, sem equipamentos de segurança e, muitas vezes, sem a mínima consciência do risco que impõem a si e aos outros.
A tecnologia chegou, mas a educação não veio junto.
E quando isso acontece, o espaço urbano vira um ambiente de disputa, não de convivência.
O alerta que veio tarde, mas precisa ser ouvido
A atuação do Ministério Público, ao apurar o caso de Joinville, é necessária. Mas ela também revela algo incômodo: o poder público reage depois que o problema já está instalado.
Não se trata de demonizar os patinetes, nem de frear a inovação. Trata-se de reconhecer que não basta autorizar o uso. É preciso regular, fiscalizar e, principalmente, diferenciar responsabilidades.
Um patinete compartilhado, limitado por sistema, não pode ser tratado da mesma forma que um veículo autopropelido capaz de circular em velocidade semelhante à de uma motocicleta. A ausência dessa distinção é um dos fatores que tornam o cenário atual tão confuso, e tão arriscado.
Quando a pressa atropela o bom senso
O Brasil tem uma relação curiosa com a tecnologia: adota rápido, regula devagar e só discute os limites depois do acidente. Foi assim com os aplicativos de transporte, com as bicicletas elétricas e agora com os patinetes.
O caso de Joinville não é um ponto fora da curva. É um alerta. Mais um.
Alerta de que mobilidade urbana exige mais do que aplicativos modernos.
Exige regras claras, fiscalização real e, sobretudo, responsabilidade individual.
Porque, no fim das contas, não é o patinete que atropela.
É a forma como escolhemos usá-lo.
