Florianópolis virou ponto de encontro para quem está tentando decifrar o futuro dos ativos digitais no Brasil. Um evento organizado pela ABToken reuniu mais de 70 empresas e especialistas para debater tokenização de ativos, tecnologia que pode transformar bens como imóveis, crédito e participação societária em registros digitais negociáveis, mas também levantou uma questão que ainda trava o país: o que exatamente um token representa na prática e no Direito.
Segundo o advogado e fundador da Govfy, Cassio Biffi, a tokenização já está em andamento no Brasil e o país é protagonista em várias frentes, principalmente em renda fixa digital, crédito, agro e imobiliário. Ele ressalta, porém, que o problema não é tecnológico, está na definição conceitual do token e na forma como o mercado, a regulação e os agentes econômicos o compreendem.
Para Biffi, um token não é automaticamente o imóvel ou o bem que representa. “Ele pode ser a representação de determinados direitos sobre esse bem, ou de uma participação societária, ou de um crédito. Se o mercado não entende claramente o que o token simboliza, cria-se ruído e insegurança jurídica”, explicou no texto que norteou o encontro em Florianópolis.
O debate faz sentido considerando o ritmo de crescimento: o Brasil movimentou bilhões em ativos tokenizados em 2025 e há expectativa de que 2026 seja o ano chave para a expansão desse modelo de mercado, especialmente com a convergência de sistemas digitais financeiros nacionais, como o PIX, open finance e a infraestrutura que prevê integração entre tokens e pagamentos digitais.
O evento catarinense, liderado por Regina Pedroso, da ABToken, deslocou a conversa para fora dos centros tradicionais e aproximou a tokenização de setores fortes da economia local, como tecnologia, agronegócio e real estate, reconhecendo a vocação de Santa Catarina para participar desse movimento.
Biffi destaca que a tokenização não é apenas transformar algo físico em digital, é redefinir a linguagem do capital, trazendo mais liquidez, rastreabilidade e transparência para negociações que historicamente eram pesadas e cheias de intermediários.
Para quem está fora da bolha dos negócios digitais, a tokenização pode parecer distante, mas o impacto pode atingir consumidores, investidores e empresas comuns:
– pode permitir a compra de frações de ativos caros, como imóveis, sem grandes intermediários;
– pode reduzir custos e tempo de transação ao eliminar gargalos tradicionais;
– exige, no entanto, uma clareza jurídica que ainda não existe plenamente no Brasil, especialmente sobre o que cada token representa em termos de direitos econômicos e legais.
O desafio agora, segundo os debatedores, é transformar tecnologia em regras claras e debate em mercado funcional, para que a inovação saia da teoria e impacte diretamente a economia real com segurança e confiança dos investidores.
E afinal, como o seu Zé da esquina vai usar um token?
Quando se fala em tokenização, muita gente imagina algo distante, técnico demais ou restrito ao mercado financeiro. Mas a verdade é que o seu Zé da esquina vai usar token sem sequer saber que está usando.
Assim como hoje ele usa Pix, cartão por aproximação ou QR Code sem pensar na tecnologia por trás, o token tende a funcionar do mesmo jeito: invisível, mas presente.
Um exemplo simples é o ingresso para um show ou evento. Em vez de papel ou bilhete físico, o ingresso pode ser transformado em um token digital. Esse token garante que o ingresso é autêntico, evita falsificações, permite transferência segura e facilita o reembolso, tudo de forma automática. Para o seu Zé, isso aparece apenas como “comprei o ingresso pelo celular”.
Outro exemplo está nos investimentos. Atualmente, pessoas com menor capacidade financeira enfrentam dificuldades para investir em imóveis, grandes projetos ou empreendimentos de maior porte. A tokenização surge como instrumento tecnológico capaz de fracionar economicamente esses bens, sem que isso represente, no momento, a transferência ou o registro da propriedade imobiliária.
Nesse modelo, o investidor não adquire a titularidade do imóvel, mas uma representação digital de direitos econômicos vinculados ao bem, registrada em sistema seguro e auditável. Os rendimentos são percebidos de forma proporcional à participação adquirida, com acompanhamento facilitado por meios digitais. Muito em breve, com a evolução normativa e a regulamentação específica no âmbito dos cartórios, a tokenização poderá vir a permitir até a transferência e o registro da propriedade de forma segura e juridicamente válida, ampliando o acesso ao mercado imobiliário sem prejuízo à segurança jurídica
Até mesmo nos pagamentos o token já está presente. Quando alguém usa cartão ou carteira digital, os dados reais não circulam pela internet. O sistema cria um código temporário, um token, que representa aquelas informações e evita fraudes. O consumidor não vê isso acontecer, mas é o que garante mais segurança nas transações.
O ponto central é que o token não foi feito para impressionar, mas para funcionar nos bastidores. O problema começa quando ninguém explica claramente o que aquele token representa. Ele pode ser um direito, uma fração de um bem, um crédito ou apenas um registro digital. Se isso não estiver bem definido, abre-se espaço para confusão, promessas exageradas e insegurança jurídica.
Por isso o debate ganhou força. Não se trata de tecnologia futurista, mas de algo que já está entrando na rotina das pessoas, mesmo que elas não percebam. O desafio agora é garantir que, por trás da inovação, exista clareza, regra e proteção para quem está do outro lado da tela, inclusive o seu Zé da esquina.
