Há conversas que começam antes de começar. A minha com Luiz Artur Ferraretto, naquela tarde de 22 de junho de 2020, foi assim. Antes mesmo de eu apertar o “gravar”, já havia no ar uma espécie de sintonia fina, dessas que só o rádio é capaz de produzir, mesmo quando não estamos diante de um microfone.
Ele chegou com a tranquilidade de quem conhece o caminho do som. Não havia pose, não havia performance. Havia apenas a voz, e é sempre pela voz que o rádio se apresenta.
O episódio durou pouco mais de uma hora. Mas cada minuto parecia expandir o tempo, como se estivéssemos dentro de uma cabine antiga, dessas que deixam o mundo do lado de fora e seguram o silêncio com as duas mãos.
O rádio como lugar onde as pessoas descansam
Quando Ferraretto fala do rádio, não é análise técnica. É afeto estruturado em argumento.
Ele diz que o rádio acompanha o brasileiro porque sabe entrar devagar na vida das pessoas. Não exige a devoção das telas, nem a lógica da pressa. Ele simplesmente chega.
No banco do ônibus.
No fogão aceso.
No quarto escuro.
No carro que volta tarde.
Na solidão que ninguém confessa.
“O rádio é o amigo que não invade, mas permanece”, ele disse; e essa frase poderia, tranquilamente, estar escrita em alguma parede esquecida de uma emissora AM dos anos 60. A voz dele carrega algo desse tempo, uma melodia que não pede aplauso, só atenção.
A narrativa que acontece dentro da cabeça do ouvinte
Ferraretto expressou um ponto que me pega sempre, como jornalista e como professor: o rádio é o único meio que devolve ao ouvinte a tarefa de imaginar.
A televisão mostra.
O jornal descreve.
A internet dispara.
O rádio sugere.
E nessa sugestão vive um artesanato que quase desaprendemos. As palavras no rádio precisam caber no ouvido de alguém. Precisam ter o tamanho exato para não transbordar nem faltar. É uma escrita ancorada no ar, como quem tira medidas de um corpo que não vê, mas conhece.
“O texto falado é um texto que se perde”, ele comentou. E aí está a beleza: saber que aquilo que você diz evapora no instante em que é dito. Nada permanece, exceto a marca emocional que fica em quem escuta.
O mercado muda, a alma não
Quando perguntei sobre o futuro do rádio, Ferraretto não romantizou. Ele sabe das dificuldades. A queda de receita. O avanço agressivo do digital. A transformação das emissoras em plataformas. A diminuição das equipes. A disputa inglória contra algoritmos que gritam onde antes bastava falar.
Mas ele também sabe que o rádio tem um dom que nenhuma rede social conquistou: a capacidade de criar companhia.
Não companhia de ruído; companhia de sentido.
Se o rádio sobreviverá?
A pergunta me parece mal formulada.
A dúvida real é outra: quem sobreviverá sem ele?
Sem a voz que consola.
Sem a notícia que chega enquanto você dirige.
Sem o debate que ocupa o silêncio da madrugada.
Sem o jornalista que não se esconde atrás de efeitos, só atrás do próprio fôlego.
Ferraretto devolveu o rádio ao seu lugar simbólico
Ele me fez lembrar que o rádio, quando bem feito, é uma espécie de intimidade pública. Uma carta aberta escrita para uma única pessoa. Um abraço que nunca aparece na foto, mas que se sente.
Senti isso ao longo de toda a conversa: que o rádio não é passado. É um presente contínuo. Um presente que nunca deixa de chegar.
E ali, enquanto o café esfriava e a gravação corria, entendi que o rádio habita um tipo especial de silêncio, o silêncio de quem escuta.
No final, Ferraretto não fez previsão, nem diagnóstico. Fez algo mais valioso: uma lembrança.
A lembrança de que a comunicação só existe quando alguém está disposto a ouvir. E, talvez por isso, o rádio ainda seja o meio mais humano que temos.
