Entre a tradição que vibra e a modernidade que distancia: o que Cheong Wa Dae revela sobre a alma perdida dos palácios brasileiros
Há lugares em que a história não precisa ser contada: ela vibra.
Quando estive na Cheong Wa Dae, em 2023, encontrei um espaço vazio, silencioso, transformado em atração turística depois da mudança do gabinete presidencial para Yongsan. Turistas posavam diante do telhado azul cintilante, os celulares produziam centenas de imagens “instagramáveis”, e mesmo assim — ou talvez por causa disso — era impossível ignorar que aquele pátio já testemunhou decisões que moldaram a Coreia contemporânea. Havia algo no ar, um resíduo de poder, como se as paredes ainda guardassem conversas difíceis, crises militares e pactos feitos antes do amanhecer.
Por isso é impossível tratar a notícia da semana como mera logística: o governo sul-coreano iniciou oficialmente o retorno do gabinete presidencial para a Cheong Wa Dae. Caixas sendo carregadas, cafeterias internas fechando, salas de imprensa desmontadas e remontadas. Um processo que deve terminar até o Natal, mas cujo significado ultrapassa a simples troca de endereço.
A Casa Azul — inaugurada em 1991 na forma como a conhecemos hoje, embora o local tenha sido sede do poder desde a dinastia Joseon — sempre foi muito mais que um palácio. Sob ocupação japonesa, abrigou o quartel-general do governo colonial. Depois da libertação, tornou-se o centro político da República da Coreia. Ali se discutiram armistícios, reformas econômicas, crises de legitimidade, escândalos presidenciais e marchas rumo ao desenvolvimento. Ao mesmo tempo, a Cheong Wa Dae carregou a sombra de períodos autoritários: foi alvo de ataques, sofreu tentativas de assassinato contra chefes de Estado e simbolizou a distância entre o poder e o povo.
Quando o presidente Yoon Suk-yeol decidiu transferir o gabinete para Yongsan, em 2022, foi vendido ao público um discurso de modernização, transparência e aproximação da sociedade. A mudança, entretanto, revelou-se cara, improvisada e logisticamente difícil. O Exército precisou reorganizar sua estrutura, e a promessa de maior abertura ao público se dissolveu em problemas práticos.
Agora, a volta para a Casa Azul é apresentada como um “retorno à normalidade”. Mas normalidade política é sempre narrativa — e narrativa é sempre disputa.
O retorno reacende o debate sobre o verdadeiro lugar simbólico da Cheong Wa Dae. Transformada em atração turística quando a conheci — com visitantes caminhando por espaços onde presidentes viviam e trabalhavam — ela passou a representar a democratização física do poder. Reocupá-la significa fechar novamente esse acesso, ainda que parcialmente, e restaurar o simbolismo tradicional da autoridade.
É impossível ignorar que o prédio, com seu telhado de 150 mil telhas azuis tradicionais, ladeado por montanhas e alinhado segundo princípios geomânticos coreanos, foi projetado para comunicar estabilidade, continuidade e reverência à história. Na Coreia, o feng shui (pungsu-jiri) não é estética: é política. O palácio olha para o sul, protegido pela montanha ao norte e amparado por uma paisagem que os coreanos veem como auspiciosa. É o Estado literalmente assentado sobre a geografia da tradição.
O fato de que o presidente continuará morando em Hannam-dong por enquanto revela outro aspecto: mudar alguém, não apenas um gabinete, exige uma engenharia de segurança e de símbolos muito mais complexa. Rotas, equipes, perímetros, inteligência. A residência virá depois, quando puder carregar o peso histórico sem fragilidade.
No fim, a pergunta central sobre a Casa Azul talvez não seja por que voltar? mas por que sair?
A Coreia do Sul é um país que equilibra tradição e hiper-modernidade com naturalidade — mas não sem conflitos internos. A ida para Yongsan representou uma ruptura estética e discursiva. A volta para Cheong Wa Dae marca um passo para trás? Um acerto de rota? Ou apenas a reafirmação de que certos símbolos são fortes demais para serem substituídos?
O que eu senti caminhando por aquele pátio silencioso em 2023 foi a presença de algo que nenhum gabinete provisório em Yongsan conseguiu replicar: a memória institucional. Não uma memória neutra, mas viva, contraditória, marcada por crises, conquistas, autoritarismos e democratizações. A Casa Azul não é apenas um prédio. É um arquivo emocional do Estado.
E talvez seja justamente por isso que ela sempre volta ao centro do palco. Porque, no fim, a política muda de endereço, mas a história — essa não se muda com caixas de papelão. Ela fica onde vibra. E na Cheong Wa Dae, ela vibra em cada pedra, cada telha e cada silêncio.
Há algo interessante quando comparo a aura da Cheong Wa Dae com a experiência brasileira.
Brasília, nossa capital modernista, nasceu sob o sopro da utopia: a cidade que simbolizaria o futuro, o rompimento com o passado colonial, o Brasil enfim mirando o porvir. Mas no gesto de levar o poder para o Planalto Central, ergueu-se também um distanciamento quase metafísico entre Estado e sociedade.
Os palácios desenhados por Oscar Niemeyer são monumentais, belíssimos aos olhos treinados da arquitetura, mas pouco dialogam com o cidadão comum. São estruturas que se contemplam à distância, como se o poder tivesse sido moldado para ser visto — nunca tocado.
Ali não há montanha protegendo, nem tradição respirando pelas paredes, nem telhas que carreguem a memória do país. Há concreto, curvas, vitrines políticas e um vazio simbólico que sempre exigiu discursos para se justificar.
A Cheong Wa Dae vibra porque sua história pulsa no chão; o Palácio do Planalto, o Alvorada e o Senado impressionam, mas raramente emocionam. O visitante é espectador — não parte da narrativa.
E talvez esteja aí a diferença mais profunda.
Enquanto a Casa Azul se tornou, por um breve período, um espaço instagramável e turístico, Brasília nunca conseguiu incorporar ao cotidiano brasileiro a experiência de “visitar o poder”.
A Esplanada dos Ministérios, com sua escala monumental, parece ter sido projetada para afastar. É como se dissesse:
“O Estado está aqui, mas você não.”
A Coreia do Sul está discutindo se deve voltar ao símbolo que moldou sua história recente — e, ao fazê-lo, discute qual identidade deseja projetar.
Nós, no Brasil, convivemos com uma capital que nasceu monumental, mas que nunca se tornou orgânica. Nos falta a vibração histórica porque nossos símbolos, embora grandiosos, são desprovidos de alma compartilhada. Palácios que não ecoam a experiência nacional, apenas a abstração de uma ideia de futuro que o país ainda não realizou.
Se Cheong Wa Dae é o poder assentado sobre a memória, Brasília é o poder suspenso sobre o projeto.
E talvez seja por isso que, quando estive diante daquele pátio silencioso em Seul, senti mais força histórica do que muitas vezes sinto caminhando pela Esplanada.
Porque ali, no sopé de um monte antigo, o passado, o presente e o futuro disputam o mesmo espaço.
Aqui, no coração modernista do Brasil, continuamos esperando o momento em que os prédios deixarão de ser apenas imagens de cartão-postal para finalmente se tornarem história vivida — e não apenas planejada.
