Há quem pense que ser professor é simplesmente dominar um conteúdo e repeti-lo diante de uma turma.
Outros acreditam que basta um bom método ou uma sequência de slides bem elaborados para cumprir a função. Mas a verdade é mais dura e mais bela: não basta estar professor, é preciso ser professor.
Ser professor exige muito mais do que competência técnica. Exige sentir, encantar, vibrar com a complexidade humana que se apresenta a cada olhar curioso ou desinteressado na sala de aula. É um trabalho de criação, de invenção, de entrega.
Luciana Gruppelli Loponte, em seu estudo sobre a relação entre estética e formação docente, provoca justamente essa reflexão: a docência não pode ser reduzida a manuais prescritivos e modelos engessados. Ao contrário, deve ser constantemente reinventada, contaminada pela arte, pela estética, pelo imprevisto da vida que irrompe nas relações humanas.
Michel Foucault perguntava: “Por que não poderia a vida de todos se transformar em uma obra de arte?”. Pois bem, a docência é talvez o terreno mais fértil para esse desafio. Ser professor é dar forma à experiência humana, é criar condições para que o aluno se reconheça como sujeito do próprio conhecimento. É encarar a sala de aula não como um espaço de repetição, mas como um ateliê vivo.
E aqui não falo apenas das universidades, nem dos cursos formais. Falo também do tatame. No Taekwondo, um mestre não ensina apenas chutes ou técnicas de defesa; ele conduz um rito de formação humana. Ensina a lidar com a frustração, com a disciplina, com a vitória e a derrota. A aula, seja de Filosofia ou de artes marciais, só se completa quando o professor consegue tocar o aluno em alguma dimensão mais profunda do que a técnica.
É preciso dizer também que cada aula, por mais corriqueira que pareça ao professor, pode ser aguardada com ansiedade pelo aluno. Talvez seja o encontro mais esperado da semana, o momento em que ele projeta sua esperança de aprender, crescer e transformar-se. E é nesse ponto que a mediocridade docente se torna imperdoável. Quando o professor escolhe ser medíocre, reduz a aula a um ritual burocrático e trai a confiança do estudante que nele depositou expectativa.
O perigo é o da docência fast-food: apostilas prontas, aulas formatadas, professores consumindo métodos como quem engole fórmulas mágicas. Isso produz burocratas da educação, não professores. Um bom professor, ao contrário, está predisposto. Coloca-se em estado de atenção anímica, aberto ao encontro e consciente de que ali se estabelece uma relação única. É essa predisposição que diferencia a aula protocolar da experiência transformadora.
Essa é a arte da docência. Transformar uma experiência comum em algo memorável. Dar sentido onde só havia rotina. Fazer do conhecimento não apenas informação, mas experiência estética, ética e humana.
Por isso, insisto: ensinar é encantar. É colocar-se inteiro em jogo, não porque o improviso resolve, mas porque o compromisso de estar presente exige. É nesse gesto, muitas vezes invisível, que a sala de aula ou o tatame deixa de ser apenas espaço de transmissão de saberes e se torna lugar de transformação.
E essa é, afinal, a marca de um verdadeiro professor.
