No extremo norte da Coreia do Sul, a paisagem muda antes mesmo de o destino aparecer no
horizonte. O asfalto moderno cede lentamente lugar às estradas estreitas, e a velocidade urbana dá lugar à espera dos ônibus que passam, quando muito, a cada hora e meia. Ali, na ilha de Ganghwa (ou Conrad, como aparece romanizada em algumas versões ocidentais), começa o que o cineasta, fotógrafo e escritor Gilson 길손, brasileiro radicado em Seul, descreve como uma jornada “suspensa entre dois mundos”. E é a partir do relato dele — tão sensível quanto devastador — que nos aproximamos, sem pressa, do lugar onde a história se cristalizou em geografia: a Zona Desmilitarizada (DMZ) da Coreia.
A ponte como metáfora
“A ponte que conecta Conrad à terra firme é mais que concreto e aço”, escreve Gilson. “É um portal temporal, uma passagem para uma Coreia que insiste em existir fora da velocidade frenética da modernidade.” A frase resume bem a atmosfera daquele território: uma região em que as leis da história, da memória e da ausência pesam mais do que as leis da física.
Ali, a fronteira entre as Coreias não é marcada por um muro, mas por um rio — fluido, simbólico, mas politicamente implacável. A água que corre parece ignorar as linhas artificiais desenhadas por burocratas soviéticos e americanos em 1945. “A divisão entre Norte e Sul foi decidida por estrangeiros que sequer conheciam a língua ou os nomes das aldeias que separavam para sempre”, recorda Gilson em seu vídeo-reflexão.
E é esse “para sempre” que torna a paisagem tão inquietante.
O exílio como vocação
A ilha de Conrad tem um histórico peculiar: durante a dinastia Joseon, serviu como local de exílio para dissidentes políticos, intelectuais, poetas inconvenientes. E ainda hoje, de forma não oficial, abriga outro tipo de exilado — os desertores norte-coreanos, que às vezes chegam empurrados por marés e ventos, quase sempre fugindo da fome, da opressão, da impossibilidade de existir.
Gilson lembra a história de Han Song, uma mulher que atravessou a fronteira com o filho pequeno e morreu de fome em Seul, dois meses depois. “Ela morreu geograficamente livre, mas socialmente aprisionada”, diz ele, num dos trechos mais perturbadores. O paradoxo resume o destino de muitos dos que cruzam a linha ideológica: escapam de um regime fechado para se perder numa sociedade onde são estrangeiros para sempre.
A travessia entre sistemas é brutal. Quase 72% dos desertores são mulheres, muitas delas vítimas de tráfico humano na China, carregando traumas profundos e marcas que não se apagam com o visto de residência. E o sotaque norte-coreano, imediatamente perceptível, transforma-se em um estigma linguístico — marca que denuncia a origem, abre portas apenas para o preconceito.
Quando o capitalismo vira atração turística
Há um Starbucks no topo de um observatório que permite ver vilarejos do Norte. Lá, famílias sul-coreanas tomam frappuccinos enquanto apontam binóculos para campos onde norte-coreanos plantam arroz. A cena é surreal, como nota Gilson: “É o capitalismo globalizado encontrando a Guerra Fria fossilizada. O consumo casual diante de um trauma histórico não resolvido.”
Esse tipo de estetização da dor é comum nas zonas limítrofes do mundo. A diferença, neste caso, é o grau de congelamento da realidade. Não há tiros, mas também não há encontros. Não há guerra, mas também não há paz. “A DMZ é ausência materializada em geografia”, define o cineasta.
A indiferença que sucede o ódio
Talvez o mais angustiante não seja o conflito, mas a banalização da divisão. A geração que nasceu depois dos anos 1990 já enxerga o Norte como uma abstração distante. Os relatos de familiares separados soam quase como ficção histórica. A divisão deixou de ser uma ferida aberta para se tornar um estado naturalizado das coisas — e talvez esse seja o maior triunfo da guerra: transformar-se em paisagem.
Gilson cita o filósofo Byung-Chul Han, especialmente em A Expulsão do Outro, para refletir sobre essa transição. Na sociedade atual, o outro não é mais combatido, mas ignorado, apagado. E poucos povos viveram isso de forma tão literal quanto os coreanos: separados por um traço no mapa, mas unidos por uma cultura que insiste em sobreviver às ideologias que os apartam.
Quando a liberdade pesa
O relato ganha ainda mais densidade quando Gilson menciona os que escolheram voltar ao Norte. Entre 2012 e 2022, ao menos 31 desertores retornaram, segundo dados oficiais. Um número pequeno? Sim. Mas filosoficamente devastador. São pessoas que preferiram a opressão conhecida ao abandono inesperado, que trocaram a promessa de liberdade pela familiaridade do cárcere.
Paul Ricoeur, em A Memória, a História e o Esquecimento, fala sobre a memória impedida, aquela que se torna insuportável de ser lembrada. Para alguns desertores, voltar ao Norte talvez seja a única forma de reconstruir uma identidade esfacelada pela rejeição no Sul.
As montanhas que não sabem que estão divididas
“Geografia não reconhece nossas divisões políticas”, diz Gilson. E talvez não haja imagem mais poderosa do que esta: as árvores crescem iguais dos dois lados, os pássaros cruzam a fronteira sem passaporte, o vento sopra sem distinção de regimes. Mas os humanos, com sua obsessão por controle e exclusão, criaram muros invisíveis que nem mesmo o tempo conseguiu derrubar.
A tragédia das Coreias, afinal, não está apenas em sua divisão, mas na maneira como essa divisão se tornou normal, aceitável, até esteticamente contemplável. A paz, ali, é apenas a ausência de tiros. Um cessar-fogo coreografado, que institucionalizou o conflito em vez de resolvê-lo.
A pergunta que não cala
Ao final de sua jornada, Gilson lança uma provocação que reverbera muito além da Península Coreana:
“Em que momento uma sociedade decide que a separação é preferível ao risco da proximidade?”
É uma pergunta que serve para Coreias, para famílias divididas, para nações em polarização crônica. Uma pergunta que, como as montanhas vistas do observatório, parece simples de responder, mas permanece imensamente distante.
Referências:
- Gilson 길손 – Cineasta e escritor radicado em Seul. Instagram: @gilsonnunchi
- A Expulsão do Outro, de Byung-Chul Han
- A Memória, a História e o Esquecimento, de Paul Ricoeur
- Dados oficiais do Ministério da Unificação da Coreia do Sul (2012–2022)
- Relatos publicados em veículos coreanos e organizações que acompanham desertores
