Não é um golpe isolado, não é um problema pontual e tampouco se restringe à advocacia. O chamado golpe do “falso advogado” tornou-se um fenômeno nacional, com vítimas em série, prejuízos financeiros expressivos e um impacto silencioso, porém profundo: a erosão da confiança nas instituições. Para a Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Santa Catarina, a situação já ultrapassou o campo corporativo e precisa ser tratada como questão de segurança pública.

Diante da escalada das fraudes, o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil reuniu, em Brasília, representantes de setores estratégicos para tentar enfrentar o problema de forma coordenada. Foi a primeira vez que plataformas digitais, sistema financeiro e entidades de tecnologia sentaram à mesma mesa para discutir soluções práticas contra o crime.

Participaram do encontro representantes da Meta, da Conexis Brasil Digital, da Federação Brasileira de Bancos, da Zetta, da Associação Brasileira de Internet (Abranet), da Brasscom e da Associação Brasileira de Bancos (ABBC). O diagnóstico comum: o golpe cresce porque explora falhas estruturais, tanto tecnológicas quanto institucionais.

O drama por trás das estatísticas

Na prática, o roteiro se repete. Criminosos se passam por advogados ou escritórios reais, usam informações processuais verdadeiras, abordam vítimas por aplicativos de mensagens e exigem pagamentos urgentes para “liberação de valores”, “custas finais” ou “taxas judiciais”. O resultado é devastador: pessoas que já estão fragilizadas emocionalmente acabam perdendo economias de uma vida inteira.

Em Santa Catarina, a OAB não ficou à espera. A seccional catarinense articulou ações conjuntas com a Polícia Civil, que resultaram na desarticulação de grupos criminosos, e foi além: propôs a primeira Ação Civil Pública do país contra a Meta, cobrando responsabilidade da plataforma na proliferação das fraudes.

Pressão institucional e enfrentamento em várias frentes

Além da via judicial, a OAB/SC intensificou o diálogo direto com representantes das plataformas digitais, cobrando medidas preventivas concretas. A entidade também acionou o Conselho Nacional de Justiça e o Ministério Público de Santa Catarina, ampliando o debate para além da advocacia.

Outro eixo central é o chamado “Contragolpe da Ordem”, iniciativa que atua em duas frentes:

  • prevenção interna, com orientações, protocolos de segurança e alertas à advocacia;
  • conscientização da sociedade, com campanhas informativas e apoio da imprensa para ensinar como identificar tentativas de fraude.

“Isso não é papel exclusivo da OAB”

Para a presidência da OAB catarinense, Dr Juliano Mandelli, insistir que a Ordem resolva sozinha o problema é ignorar a dimensão real do crime.

“Isso não é papel da OAB. É imprescindível que o poder público e as empresas se mobilizem de forma efetiva. Estamos falando de organizações criminosas que exploram falhas sistêmicas e afetam diretamente a confiança da população nas instituições.”

A avaliação é clara: enquanto o golpe for tratado como um efeito colateral da tecnologia, e não como crime organizado digital, a resposta seguirá fragmentada — e ineficaz.

Uma nova reunião do Conselho Federal da OAB está prevista para a próxima semana. A expectativa é que, desta vez, o encontro não produza apenas diagnósticos, mas encaminhamentos concretos, capazes de interromper um ciclo de prejuízos que já se tornou cotidiano no Brasil.

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